Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Vingança dos Mortos do Brasil
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“Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!”
(O navio negreiro, Castro Alves)
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!”
(O navio negreiro, Castro Alves)
“Quero contar a história de uma noite.
Uma noite quente.
Num país quente e desgraçado”
(Geleia de morango, NoPorn)
Uma noite quente.
Num país quente e desgraçado”
(Geleia de morango, NoPorn)
Quero contar a história
de um país com nome incandescente,
era uma vez: naqueles dias,
seu presidente fez que sufocava
em frente às câmeras para zombar
dos moribundos. País à deriva,
sem rumo. Órbita refeita ao redor
do passado. Naqueles dias, sua
Namoradinha queria era te abandonar,
de um país com nome incandescente,
era uma vez: naqueles dias,
seu presidente fez que sufocava
em frente às câmeras para zombar
dos moribundos. País à deriva,
sem rumo. Órbita refeita ao redor
do passado. Naqueles dias, sua
Namoradinha queria era te abandonar,
hein, Dona Helena?,
não vai pra clínica hoje?
não vai um cafezinho?
não vai pra clínica hoje?
não vai um cafezinho?
E ela respondia que eram
por demais pesados, os mortos,
que a gente carregava seus corpos,
diante dos repórteres, sujeitos
indeterminados, rindo, em frente às
por demais pesados, os mortos,
que a gente carregava seus corpos,
diante dos repórteres, sujeitos
indeterminados, rindo, em frente às
câmeras. A terra aqui é meio sem
eira nem beira. Seu hino é um réquiem.
Sua moda? Uma mortalha. E na volta da
feira, nós, lavando as mãos e as compras,
não em nome da consciência limpa,
eira nem beira. Seu hino é um réquiem.
Sua moda? Uma mortalha. E na volta da
feira, nós, lavando as mãos e as compras,
não em nome da consciência limpa,
mas da consciência pesada, menos
em nome da mania de limpeza
e mais em nome da mania de grandeza.
Porque, naqueles dias, a gente confundia
a palavra cemitério com o termo território.
em nome da mania de limpeza
e mais em nome da mania de grandeza.
Porque, naqueles dias, a gente confundia
a palavra cemitério com o termo território.
De tão evocados seus mortos, de nomes
nunca citados, se indignaram nas covas,
reivindicando seu lugar de fala.
nunca citados, se indignaram nas covas,
reivindicando seu lugar de fala.
Do outro lado da vida, ouvimos
suas vozes, debaixo da terra vieram
seus juízes, o peso putrefato de seus
hálitos dizendo em alto e bom som (em
tom nefasto): “somos nós, fantasmas da nação,
e falaremos a verdade que se tornou
assombração”. Uma vez mortos, eles ressurgem
na desordem: primeiro os mortos do Covid-19.
suas vozes, debaixo da terra vieram
seus juízes, o peso putrefato de seus
hálitos dizendo em alto e bom som (em
tom nefasto): “somos nós, fantasmas da nação,
e falaremos a verdade que se tornou
assombração”. Uma vez mortos, eles ressurgem
na desordem: primeiro os mortos do Covid-19.
Depois, os mortos pelas mãos de escravocratas,
as travestis que mal chegam aos trinta,
crianças negras alvejadas por setenta balas
perdidas, jovens zumbis do fluxo no baile funk.
Os moribundos no inverno de São Paulo,
em Mariana, os afogados na lama venenosa,
mulheres mortas por quem amavam sem
certeza. Carandiru e os prisioneiros sangrados.
as travestis que mal chegam aos trinta,
crianças negras alvejadas por setenta balas
perdidas, jovens zumbis do fluxo no baile funk.
Os moribundos no inverno de São Paulo,
em Mariana, os afogados na lama venenosa,
mulheres mortas por quem amavam sem
certeza. Carandiru e os prisioneiros sangrados.
De Canudos, os guerreiros dizimados,
a Candelária e os chacinados na escada,
e os suicidas dos porões do DOI-CODI.
Todos os mortos da guerrilha do Araguaia,
candangos mortos na construção de Brasília.
Precarizados nas lavouras de nobres famílias,
os sequestrados nos navios vindos da África,
os dizimados da América originária.
a Candelária e os chacinados na escada,
e os suicidas dos porões do DOI-CODI.
Todos os mortos da guerrilha do Araguaia,
candangos mortos na construção de Brasília.
Precarizados nas lavouras de nobres famílias,
os sequestrados nos navios vindos da África,
os dizimados da América originária.
São tantos mortos nesta história mal contada
que era mais fácil ser chamado “necrotério”.
Pois no Brasil, sobreviver no território
era sinônimo de ter algum privilégio. Era
um país que não dava cidadania,
mas cova dava de bom grado,
todo dia. Que a brisa do Brasil beija e balança.
Que a brasa do Brasil tem por sentença.
que era mais fácil ser chamado “necrotério”.
Pois no Brasil, sobreviver no território
era sinônimo de ter algum privilégio. Era
um país que não dava cidadania,
mas cova dava de bom grado,
todo dia. Que a brisa do Brasil beija e balança.
Que a brasa do Brasil tem por sentença.
Mas os defuntos do Brasil, de tanto
amados, de tanto terem seus nomes
violados, de tanto serem evocados no pós-morte,
cansados de não poder nem descansar,
levantaram-se de suas tumbas do além.
E o Brasil, habituado à chacina, viu também
que era óbvio ser pelos mortos governado.
Somente eles guardavam a verdade,
amados, de tanto terem seus nomes
violados, de tanto serem evocados no pós-morte,
cansados de não poder nem descansar,
levantaram-se de suas tumbas do além.
E o Brasil, habituado à chacina, viu também
que era óbvio ser pelos mortos governado.
Somente eles guardavam a verdade,
E talvez, quem sabe, na ironia verde e
amarela ao som de um samba triste, o Brasil,
governado por defuntos, será gestado
finalmente em prol dos vivos. A vingança
dos mortos fará justiça pelos vivos,
ecoando a voz dos nascidos e esquecidos,
de um país em cujo berço esplêndido, é notório,
costuma-se botar uma coroa de velório.
amarela ao som de um samba triste, o Brasil,
governado por defuntos, será gestado
finalmente em prol dos vivos. A vingança
dos mortos fará justiça pelos vivos,
ecoando a voz dos nascidos e esquecidos,
de um país em cujo berço esplêndido, é notório,
costuma-se botar uma coroa de velório.
