Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Nada Este Peixe
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
no verso da rede
por não verem os fios –
por isso
ficam presos
os peixes
só veem da rede
os buracos
por isso
urge:
falhar os fios aumentar o vazio
desfazer a armadilha
invisível
aos olhos dos peixes
só há mar
*
sem linhas
somar
vãos vaus vá-
cuos, hiatos,
intervalos, buracos,
falhas,
derrotas
noves fora
para que tudo seja o
vazio
amplo
na água
em que o peixe
vive e
salva-
se a si
mesmo
no
nada
*
a gente das águas
diz Kopenawa
é multidão
tem mulheres e filhos
genros e noras
são eles que os olhos de fantasma das pessoas comuns veem como peixes
*
humanos,
nós
nos
amarramos
em nós
que
prendem-, atam-, enredam-,
nos
fios
*
o vazio
como sair
nascer
é abrir
frestas e janelas
entre-
brechas
do ponto de vista do peixe
o buraco é o melhor da rede
do Rosa
uma coleção de vacuidades intersticiais
cujo paradoxo:
o fluxo o fio amarra
se desenreda
por dentro do fora
e por fora do dentro
Quase indo quase vindo
*
como pescar
Clarice
entrelinhas
e ficar só no tremor da
isca
como
ela, Ângela, espia
a vida
pelo buraco da fechadura -
esse o sopro
como
*
Penélope,
ela,
só
descose
toda noite
seu gesto
desfia
uma Nadisseia
*
como
Sheherazade une
uma ponta à outra
do que narra – sua rota de fuga -
com as linhas que ao rei atam
e a ela,
desatam
*
como nós
humanos
no líquido ventre,
peixes fomos,
por isso,
a salvaguarda de nossa respiração
no ar
(que é o nosso mar),
o canto insiste
*
ah,
se a gente pudesse contar
o movimento das ondas no corpo
o movimento do corpo nas ondas,
peixes,
o arrepio
quando o corpo
na onda cresce
e quando a onda
no corpo desce
ascende e desaparece
a onda que salga
a outra que pausa
o som que vai e súbito vem
o prazer
ah,
se a gente pudesse cantar
nenhum caminho é reto nem o mar é regular
as ondas somem
de novo voltam
verso e reverso
o mar conversa
pra gente ouvir
a onda outra
onda
onde anda
a onda que a gente pega
a onda que pega a gente
a onda que a gente engole
a onda que engole a gente
a onda que embrulha
a outra onda
puxa pro fundo
segura no colo
põe pra boiar
chama
vem
a onda
nos beija no mar
aqui evapora
aqui
no buraco
da onda
o mergulho
é
agora
*
a suíte dos buracos
viver no vão
é bão
diz o baião:
o buraco é fundo, começa o mundo
nós nascemos do buraco
nós morremos no buraco
a vala é buraco
caverna é buraco
que nem a vulva
abre
buraco nos lábios da
fala
*
dentro do buraco
é sair fora
*
buraco é fissura
fissura é tesão
o que é que é
*
a orelha é buraco
a boca é buraco
o cu é buraco
as narinas
a vagina
*
o gozo é um modo de esburacar-se
*
ah,
toca o baião:
o buraco é foda
o buraco é fossa
o buraco é fresta
o buraco é festa
o buraco é ônus
o buraco é ânus
o buraco é circo
o buraco é risco
do buraco sai o leite
o buraco é o anel que tu me deste
o buraco vem do Leste
o buraco é senhora
todo buraco ressoa
ah que saudades que eu tenho dos buracos da minha vida
quem não tem na entrada, tem na saída
*
sim,
a gente pode comprar
um buraco, sim
Macabéa
*
o buraco é negro
cheio de estrelas
*
o índio do buraco
e suas veredas
*
onde sou
não estou
quando estou
não sei
*
o buraco é senha
o buraco é sanha
o buraco é oco
o buraco é olho
*
o que estrutura o inconsciente
mais
embaixo
é
o buraco
vazio
pleno
pulsa
*
you
are
someone
who
leaves
folhas na relva
*
sem pedir licença
um poema se infiltra
vai abrindo vãos
no meio da tarde
de domingo
o silêncio fala entre
as linhas
um peixe se nos olha
e indaga:
não é a orelha um buraco em forma encaracolada?
e soa o
koan:
um peixe n’água
parece peixe
nada
é peixe
a água
parece que está indo
é água
o peixe
n’água
parece que está vindo
é peixe
a água
nada
é um em dois
é dois em um
nenhum
é
um
*
no mar
a vaga esperança
alcança a praia
em sua orla
a linha
quase fisga
este peixe
que
no verso da rede
mira
e
nada
