Ir para o poema
Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Métodos para Refino ou Antirrefino

memória e verso, quando esgarçam a corda, irrompem um caminho-texto. tentarei escrevê-lo enquanto durar o cabo de guerra, mas isso requer um método. dois continentes, quando se desprendem, deixam suas entranhas embaixo do tapete. levantá-lo requer um método. mãos que sejam firmes falhas. cálculos livres de acertos. e o tempo para examinar os ácaros nas fendas das vogais acentuadas. memória e verso, quando se desprendem, irrompem um caminho-texto de heranças ou separações. rasura no cartório. rasura no corpo das pedras. rasura verso cru. ficam as intersecções fincadas no fundo do hábito, de onde ninguém as desprende. por isso, o método. refino 1:
ê, ê,
rebento
texto-terra
o que resiste
sob sua
epiderme?
qual a
profundidade
da camada
pré-sal?
ê,
ê
amálgama, quando se desprende, elabora um dito popular. água mole, pedra dura. e o quê? palavreando abriu-se o mar? eu só arriscaria dizer se obtivesse um método. um método para a estrofe primeira. recriá-la da quebra. pronunciar o gozo. penetrar as moléculas de carbono e hidrogênio. dois continentes. duas palavras. e a sobra ou rebento: petróleo. poderíamos manuseá-lo para depuração do verso víscera vômito, mas isso requer um método. seria possível aquecer a estrofe numa torre. utilizar catalisadores. escorrer nitrogênio e enxofre na gramatura do luto. 80 gramas neste miolo. para isso é preciso formatar a geologia das páginas. refino 2:
cê é
forjado
no andar das
placas
livres, então
por que
embrutece
o pólen?
ê,
ê
cê é filho
de quem?
o fim do ciclo petrifica texto-terra-tronco. disse um sábio nem tudo que reluz é sal. existe mesmo um ouro apartado de qualquer impureza? há palavras que, desprendidas de significado, passam por limpeza, moagem, peneiração — só então chegam às padarias. a cidade mastiga os métodos dos industriais, destes e de outrora. sua tinta monocromática capitula a ressaca das eras. seus pés calejados são plantas baixas. são placas tectônicas. são dores geométricas. são isto e a negação. não e não. memória e verso, quando petrificados, irrompem um novo texto viscoso. sal e pré-sal. azul-petróleo, quando se desprende, ergue este reflexo irreconhecível. refino 3:
ó, poema
sob o pingo
de luz
no atlântico
revele
sua
tipografia
dos ossos
revele-se
à entrelinha
do tempo
ê, ê
há neste ato de ir e vir alguma coisa de santa. refinar refinar refinar refinar refinar refinar refinar refinar refinar refinar refinar refinar não encerra uma vida. não rebenta uma vida. ante o refino há de se inaugurar o antirrefino. há de se curar os excessos de cálcio nos mictórios. há de se examinar a massa óssea dos poetas. há de se voltar ao início do procedimento. há de se estudar a metamorfose das palavras a seu estado de origem. palavras acumuladas dos excessos todos tolos todos necessários para a preservação das dobras dos versos. nesta pele encontrarão as vértebras do vento, os espinhos da caatinga, os sítios arqueológicos, os laboratórios de outrora. refino 4:
cê tem
a mão
que recolhe
o feixe d’água
o tomo
que recolhe
o oceano
cê tem
o silêncio gutural
dos submersos
ê, ê, poema-treva
ê, ê, poema-luz

Fim de “Métodos para Refino ou Antirrefino”.