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Edição digital1ª edição · 2026
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8º lugar1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Hortelã, Feijão e Cigarro

Eu não volto.
Não volto porque a casa ainda me mastiga por dentro
como se meus ossos fossem lembranças mal enterradas.
Já basta visitá-la
na terapia
e nos pesadelos que me puxam pelos tornozelos
às três da manhã afogando em suor.
A casa não era casa.
Era um pulmão fechado.
Era um aquário sem água.
Era a panela de pressão gritando todo dia
um grito agudo
como se o feijão estivesse pedindo misericórdia.
O rádio ligado todo dia às 9h
o padre benzendo as águas
com aquela voz que atravessava as paredes
e entrava nos copos,
nos pratos,
no meu sangue.
O jarro d’água com bastão ionizador
prometendo purificar o mundo
enquanto a casa apodrecia por dentro.
O hortelã baiano
invadindo o ar
um verde tão intenso que me dava vertigem,
como se eu respirasse folhas afiadas.
As gaiolas na garagem escura.
Ah, quantas gaiolas.
Canarinhos amarelos cantando para ninguém.
O canto como única fuga permitida.
Eu aprendendo cedo
que liberdade pode ter asas
e ainda assim não voar.
A casa era escura até sob o sol do meio-dia.
O jardim trancado.
As plantas crescendo como quem pede socorro em silêncio.
A Bíblia num pedestal alto demais.
Deus sempre acima da minha altura.
Sempre maior que a mesa,
maior que o teto,
maior que qualquer pergunta.
O cheiro de cigarro entranhado nas cortinas,
nos dedos do meu avô,
nos pulmões dele se despedindo devagar
como a luz de um lampião prestes a apagar.
Minha avó
primeiras fissuras na mente
como vidro trincando sem barulho.
Os vizinhos levando vidas normais
enquanto na cabeça dela tramavam desastres.
“É coisa do demônio”, disse o padre.
Deve ser por isso que enxergam o demônio como um bode antropomorfo.
Ele é sempre o culpado mais fácil,
o bode expiatório quando a razão começa a cair da escada.
Ela nunca faltou à igreja.
Nunca faltou aos encontros.
Nunca faltou à fé.
Mas a fé faltou quando a memória começou a se dissolver.
Um dia não foi assim.
Um dia me liam O Pequeno Príncipe
e o mundo cabia em planetas pequenos.
Um dia me liam Meu Pé de Laranja Lima
e minha avó comprou uma lima
para que eu sentisse na língua
que a doçura também pode arder.
Que gosto horrível.
Que infância ácida.
Ela fazia doce de caju
como se pudesse cristalizar o tempo.
Como se açúcar fosse remédio.
Mas depois restou o terço interminável,
as contas deslizando entre dedos trêmulos,
as orações batendo no teto e voltando vazias.
A casa virou um corredor estreito
onde o eco era sempre mais alto que as pessoas.
Um lugar onde a sanidade pendia
por um fio invisível.
Eu não volto.
Porque aquela casa agora vive atrás dos meus olhos
e acende a luz sozinha
quando tento esquecê-la.
Eu não volto.
Não quero lembrar.
Mas a memória
é uma porta
que aprende a abrir por dentro.

Fim de “Hortelã, Feijão e Cigarro”.