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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Lua Negra

É sexta-feira
fim de tarde
quando a Primeira Mulher nasce no Jardim do Éden
Negra
Negra à imagem e semelhança
de suas coxas escorre e goteja o sangue livre de tabus
absorvido naturalmente pela relva
a Primeira Mulher observa, maravilhada, a vida ao redor
ávida
avista o também recém-nascido Primeiro Homem
e, sorrindo, anda em direção a ele
este, imóvel
paralisado diante de tamanha beleza que se aproxima
se olham
se abraçam
ela não fala: sussurra
ele não fala: geme
eles se cheiram
eles se lambem
dois corpos melados de saliva e suor
magia libidinal inaugurando o Paraíso
não te contaram isso
mas o primeiro orgasmo do mundo é dela
que goza enlouquecida
seus êxtases propagados pelo vento
atraem corujas, felinos, serpentes
agora ela deseja montá-lo
mas ele a impede
ela
que também é feita de pó, sangue e bile
reivindica igualdade
pede que saia de cima dela e a deixe cavalgá-lo
mas ele
mesmo teso de tesão
se recusa
suplicante em seu não
ruptura
o Primeiro Homem não cede
a Primeira Mulher não obedece
cai a noite
ele está sozinho
e ela
cercada de Natureza
se deseja
toca a vulva
úmida
suspira lubricamente
todo o corpo espasmando
a tudo o Alfa ouve
rígido
ele ainda não sabe o que fazer das mãos...
seu sono é perturbado pelo erotismo que atravessa as trevas
e, ao despertar no sábado
ele conhece a solidão originada por sua falsa supremacia:
a Primeira Mulher o abandonou
ela
que é Alfa, mas também é Ômega
seguiu em direção ao Mar Vermelho
levando consigo uma nova expressão do amor
ao renunciar o Paraíso para viver a própria liberdade
ignorando apelos angelicais
pois já transportava no ventre
as sementes de sua primeira linhagem
(que caminharão entre nós até o fim dos tempos)
multiplicadas e germinadas as sementes
a divina transgressora fez da Lua a sua nova morada
revelando-se sempre por apenas três noites
àqueles que compreendem não se tratar da fase oculta da Lua
e sim
de sua face explícita
pronta para nos preencher
com aquilo que a Segunda Mulher não ofereceu:
integração
o nome da Primeira Mulher
a patriarcal escritura sagrada omite
e enquanto os machos murmuram-no temerosos em pesadelos
nós o bradamos com alegria:
LILITH!

Fim de “Lua Negra”.