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Edição digital1ª edição · 2026
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2º lugar1º Bula Prêmio de Poesia 2026

A Arquitetura da Ausência

As casas antigas adoecem lentamente durante a madrugada.
A madeira aprende primeiro o peso da umidade,
depois o peso da ausência.
Minha mãe recolhia do varal as roupas endurecidas pelo frio;
havia sempre terra acumulada nas barras dos lençóis,
como se o quintal tentasse entrar conosco na cozinha.
Nunca falávamos sobre os mortos durante as refeições.
O arroz esfriava no centro da mesa
enquanto os talheres produziam pequenos ruídos de ossos.
Meu avô dizia que certas perdas crescem debaixo da pele,
como raízes procurando água em terrenos abandonados.
Na infância, eu acreditava que o silêncio fosse físico.
Imaginava o silêncio ocupando as gavetas,
descendo pelas paredes,
repousando sobre os móveis depois que todos dormiam.
Eu não temia os corredores pela escuridão,
mas pela quantidade de memória acumulada neles.
Hoje percebo que o tempo não destrói de uma vez.
Primeiro remove o brilho dos objetos.
Depois corrói a voz.
Depois transforma o corpo num lugar
onde a respiração demora para acontecer.
Conheci homens que carregavam desertos nos olhos,
capazes de permanecer imóveis durante horas,
como pedras esperando o avanço da erosão.
As maçanetas. Os espelhos. As xícaras na pia.
Tudo sobrevive mais do que nós.
Escuto a estrutura da casa estalar no escuro
como um corpo mudando discretamente de posição.
Certas memórias não desejam ser lembradas;
desejam apenas continuar existindo em algum lugar.
Minhas mãos hoje se parecem com as do meu pai.
Carregam a mesma secura,
a mesma dificuldade de permanecer abertas.
Quando toco os objetos, toco também o que testemunharam:
A poeira sobre os livros.
O cheiro imóvel dos armários.
A ferrugem nas dobradiças.
Tudo aprende a forma da ruína.
E talvez seja isso que chamamos de herança:
a matéria invisível que os mortos deixam aderida às coisas,
como um segundo peso dentro do mundo.

Fim de “A Arquitetura da Ausência”.