Ir para o poema
Edição digital1ª edição · 2026
30 de 50

Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Afasia em Seis Prefixos

I. Impermeável
Há palavras
que prometem poesia,
mas traem a função.
O guarda-chuva, por exemplo.
Que belo seria
se de fato guardasse
chuva,
como quem guarda um líquido
segredo.
Não seria mais justo
dar o nome aos cílios?
Sentinelas de todas as águas:
as que tentam entrar
e as que teimam sair.
II. Inaudível
Palavras,
como saudade,
desidrataram.
Repisadas na secura das bocas.
Mesmo asiladas
na saliva do pensamento.
Algumas carregavam
pulsões rupestres
que nem a palavra
indelével
– ou inútil –
verte.
Dizê-las é fatal.
Não dizê-las, também.
Falta.
III. Inútil
Há palavras
das lombadas do papel
às lombadas do percurso
que amortecem.
Veja plâncton.
Ou fitoplâncton.
Ou zooplâncton.
Delas resta à poesia
a iridescência.
Mas já é outra
palavra.
IV. Intransponível
Palavras não sustentam
as paisagens que emoldurei.
Sabendo, eu e elas,
que meus olhos mentem
o descampado,
fixados
nos retângulos,
e os retângulos
nos globos,
e os globos
nos ossos,
e os ossos
nos corpos
de outrem.
Como as paisagens
que jamais visitei.
V. Indigesto
Das palavras,
que diferença faria,
na leitura entérica,
se eu mastigasse ar,
respirasse água
e bebesse grão?
Essa mudança
delgada
faria, das tripas,
coração?
VI. Inevitável
As palavras
também envelhecem
como as pessoas.
Algumas de tanto arder
sob o mormaço
ficam com a pele rugosa.
Difíceis de ler.
Outras se encerram
no silêncio,
e ficam com a pele transparente,
quase claraboias,
os veios.
Difíceis de esconder.
Outras tentam se reinventar:
esticam, cortam, enxertam,
mudam a cor
do batom.
Difíceis de olhar.
Mas não é possível ocultar
a idade das palavras,
como a das pessoas.
Queimadas, pálidas ou remendadas,
as palavras,
como as pessoas,
emudecem.

Fim de “Afasia em Seis Prefixos”.