Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Pastoreio
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I.
Um Oakley, para Iemanjá, na praia dos Ingleses,
Uma certa presciência das coisas que tinhas aos nove anos,
O bafio das hortênsias no Canalete da Major Carlos Pinto.
O incisivo recolhido do espelhinho do banheiro do meu pai,
A felicidade dos minnows quando o sol os aquece no marisma.
Mais ou menos pela mesma época, perdi
Uma garota de Peixes que sonhei governar,
Um banco de trás depois do Araçá da Lagoa,
A fé em Nossa Senhora Aparecida.
Aquele Kadett 96 por prestações atrasadas –
Velho o bastante para ler no mandado Decreto-Lei 911,
Moço o suficiente para chorar com as pancadas na porta
(Renato, o Agiota).
O ingresso da minha primeira ida ao Olímpico (Grêmio x Criciúma, gol de Roger Ma-chado),
Antes mesmo de tê-lo, por vergonha, meu quase amigo do Quirguistão, que me pediu companhia para remar no Liffey,
Uma chance de redenção quando não paguei um almoço de uma mãe: Lancheria do Alemão, rodoviária de Porto Alegre.
(A moça do Araçá vivia numa estância e tinha a íris leitosa, dúvidas quanto ao noivo, e insistia em ligações de vídeo pela madrugada).
A economia inútil de todos os cafés expressos não tomados no meio da manhã,
Tal como vó Dalila aconselhou; da casa dela
a companhia kitsch - mas terrosa - de seus anões de jardim.
De vista, a baleia Old Timer,
Provavelmente uma franca,
Borda sudeste da Ilha do Campeche.
As duas ou três palavras decoradas de Larfiagem,
Um CD do Volume Dois dos Titãs cujo nome do proprietário original foi apagado pelo receptador
(Da carga estourada de algum contêiner do Porto de Rio Grande),
Minha paixão por direito indigenista e,
Talvez,
As ligações do pai no meu dia de aniversário.
Uma japonesinha que se refugiou entre a Floresta Negra e a Bavária.
Acima de tudo, perdi o Daruma com somente um dos olhos pintados.
II.
Todas as causas perdidas pastoreiam em um primeiro
nevoeiro do alvorecer,
Como uma tropilha de tordilhos.
Lá, à luz de um coto de velas,
O Negrinho as aponta, sem chorar ou sorrir,
Em seu baio de pontas negras.
Tição da esperança,
Fé nesse poema dos restos.
Do baio se dizia tão veloz
Que o vento assobiava nas crinas,
Ouvia-se o tropel, não se viam as patas.
Ainda assim, gineteado pelo Negrinho,
Perdeu para o mouro
(Perder é universal),
Perdeu assim o estancieiro, dono de ambos:
Corcel e escravo.
Perdeu sangue o Negrinho, de surra de relho.
E para cada quadra da corrida perdida (eram trinta),
Teve de ficar um dia pastoreando
A cavalhada do patrão.
Tanto sol, vento, chuva e noite,
Que dormiu o Negrinho
Vigiado por corujas imóveis no ar, sem barulho nas asas
Olhos amarelos na escuridão.
Os guaraxains roendo as cordas da tropinha,
Fugiram os cavalos:
Pastoreio perdido.
Nova surra de relho,
É tanta coisa perdida,
Que faltam poemas no mundo,
Nossa Senhora Aparecida,
Teu Negrinho agora imundo,
Ora por ele, conduz,
Uma vela do oratório
Com a luz esmaecida
Ia pingando cera,
no caminho do simplório,
E de cada pingo, uma luz.
Perdi, perdeste, perdemos.
Todas as causas perdidas pastoreiam em um primeiro
nevoeiro do alvorecer,
Como uma tropilha de tordilhos.
Achou o pastoreio o Negrinho
E mais uma vez os perdeu
Por maldade do filho do estancieiro
(Esse moleque endiabrado, de olhos leitosos,
Chamado Acaso).
Óculos,
Dentes,
Um carro verde metálico,
Mulheres,
E um cetáceo que os sobrevoa, imóvel.
Nova surra de relho!
Castigando o caos de les trucs perdus.
Mas dessa vez perdeu o Negrinho,
O que não podia perder
E seu corpo foi jogado
Na panela de um formigueiro
Pele, carne, ossos
Um buraco roído inteiro
Carvão doce da esperança.
Três noites de cerração
E nada dos tordilhos,
Mas no vão em que foi deitado,
De pele linda, perfeita, um breu
Sacudindo de si as formigas,
O Negrinho de pé se ergueu,
O cavalo baio e toda a tropilha
Tudo que é coisa
Aparecida,
de novo achada:
Nossa Senhora Reencontrada.
III.
Um cético com pensamentos mágicos, deves admitir entretanto que o azar no amor começou quando perdeste o Daruma com um olho só pintado (ele que era nanico e ficava ao pé de um pequeno aspargo-charuto que cultivavas na mesa de estudo, e que afinal foi para o jardim da avó). No entanto, perdeste. Décadas atrás. The art of losing isn’t hard to master. Perdi, perdes-te, perdemos.
Um Daruma hoje em pó, a que nunca conseguirás cobrir a outra pupila.
