Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Oblíquo
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
Da margem contemplo o rio —
não porque ainda haja algo que me sustente,
mas porque o corpo ali permanece, exposto,
como um sobrante,
quando o olhar já não encontra resposta,
e insiste apenas por hábito
de quem demora a admitir que nada mais há para ver.
não porque ainda haja algo que me sustente,
mas porque o corpo ali permanece, exposto,
como um sobrante,
quando o olhar já não encontra resposta,
e insiste apenas por hábito
de quem demora a admitir que nada mais há para ver.
Percebo que as águas não murmuram. Lastimam.
Há nelas um som antigo, uma dicção penitente
de procissão entre pedras, matracas e orações,
perturbando o silêncio
que eu trouxe comigo sem perceber que pesava.
Nada aqui se organiza, nem responde;
o tempo não harmoniza, agrava;
a lágrima sequer alivia, borra a gravura
mesmo depois de evitada.
Há nelas um som antigo, uma dicção penitente
de procissão entre pedras, matracas e orações,
perturbando o silêncio
que eu trouxe comigo sem perceber que pesava.
Nada aqui se organiza, nem responde;
o tempo não harmoniza, agrava;
a lágrima sequer alivia, borra a gravura
mesmo depois de evitada.
É como a hora de uma catedral ouvida por dentro,
quando o sino convoca e o bronze atravessa o peito
com uma violência solene.
Mas ninguém insinua cruzar seu portal;
a homilia ressoa nas naves vazias,
e o mundo, lá fora, prossegue.
quando o sino convoca e o bronze atravessa o peito
com uma violência solene.
Mas ninguém insinua cruzar seu portal;
a homilia ressoa nas naves vazias,
e o mundo, lá fora, prossegue.
Da margem o corpo cede.
Não mergulha — desmorona,
e é tragado.
Sem último desejo, sem resto de intenção
que mereça nome.
Entrega-se ao que já fora decidido.
Submerge.
Não é batismo.
É descarte.
Não mergulha — desmorona,
e é tragado.
Sem último desejo, sem resto de intenção
que mereça nome.
Entrega-se ao que já fora decidido.
Submerge.
Não é batismo.
É descarte.
A corrente não acolhe: remove.
Arranca-me do alicerce precário da superfície,
desfaz a aparência de unidade em que me via,
desmente o espelho afável do remanso
e revolve o que eu supunha certeza.
Enquanto aprendo a perder a sintaxe
sob a gramática da inércia,
já não sou o que flutua,
sou a própria correnteza.
Arranca-me do alicerce precário da superfície,
desfaz a aparência de unidade em que me via,
desmente o espelho afável do remanso
e revolve o que eu supunha certeza.
Enquanto aprendo a perder a sintaxe
sob a gramática da inércia,
já não sou o que flutua,
sou a própria correnteza.
As águas buscam o oceano,
não por promessa nem vocação,
mas porque não se deter é tudo o que lhes foi dado.
Leva-me de carona,
um distúrbio provisório no curso,
um acréscimo súbito que não pede licença
e ao qual o rio não deve gratidão.
E — tarde demais — compreendo
como os elementos
ignoram a urgência.
não por promessa nem vocação,
mas porque não se deter é tudo o que lhes foi dado.
Leva-me de carona,
um distúrbio provisório no curso,
um acréscimo súbito que não pede licença
e ao qual o rio não deve gratidão.
E — tarde demais — compreendo
como os elementos
ignoram a urgência.
No fundo, as pedras ficaram.
Não por virtude.
Ficam porque o curso segue.
O rio nunca se completa.
A espuma passa — e se refaz.
As pedras não.
Resta nelas a rasura da água
que meu corpo, adjunto, riscou.
A matéria, sem timoneiro, se abandona,
os sulcos persistem no desacordo latente
entre o que flui
e o que, por receio, não acompanhou
por inteiro.
No alto, os astros remanescem.
Luzes indiferentes.
No que me resta,
aferro-me às suas réstias —
como um pião a uma corda
de reflexos.
Não por virtude.
Ficam porque o curso segue.
O rio nunca se completa.
A espuma passa — e se refaz.
As pedras não.
Resta nelas a rasura da água
que meu corpo, adjunto, riscou.
A matéria, sem timoneiro, se abandona,
os sulcos persistem no desacordo latente
entre o que flui
e o que, por receio, não acompanhou
por inteiro.
No alto, os astros remanescem.
Luzes indiferentes.
No que me resta,
aferro-me às suas réstias —
como um pião a uma corda
de reflexos.
Em meu caminho a Damasco,
um clarão à deriva me cega.
O corpo tenta se elevar,
inspira por instinto,
procura uma bolha de ar.
Mas a atmosfera não cede.
A luz se parte,
o fôlego falha,
as águas ignoram o olhar,
e tudo segue.
um clarão à deriva me cega.
O corpo tenta se elevar,
inspira por instinto,
procura uma bolha de ar.
Mas a atmosfera não cede.
A luz se parte,
o fôlego falha,
as águas ignoram o olhar,
e tudo segue.
Na água, a vida se me evade.
Por ela o corpo é tomado.
E onde antes havia o sopro,
só haverá mar.
Por ela o corpo é tomado.
E onde antes havia o sopro,
só haverá mar.
No abismo algo oblíquo ascende.
Não o sentido;
não a resposta;
e sim a consciência do equívoco
constatado.
Não o sentido;
não a resposta;
e sim a consciência do equívoco
constatado.
O erro de ainda supor
que havia margem,
que a vazante me daria a que me agarrar,
que alguém transpusesse o umbral
deste templo naufragado
entre seixos e corais,
e um derradeiro convés oferecesse.
que havia margem,
que a vazante me daria a que me agarrar,
que alguém transpusesse o umbral
deste templo naufragado
entre seixos e corais,
e um derradeiro convés oferecesse.
Mas o tempo não responde.
Não absolve.
Não redime o gesto já cumprido.
Ele passa
porque sempre passou.
Não absolve.
Não redime o gesto já cumprido.
Ele passa
porque sempre passou.
E eu —
agora transpassado,
sem forma —
passo com ele.
agora transpassado,
sem forma —
passo com ele.
