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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Incólume

O dia amanhece dócil
onde a violência chega filtrada,
como música baixa.
Aqui, a vida funciona.
O ar não fere os pulmões.
O chão não responde.
Os corpos atravessam a manhã intactos,
e ninguém precisa decidir
entre correr e cair.
As crianças aprendem a sorrir
antes de aprender a temer.
Por este ângulo,
o mundo não exige coragem,
apenas continuidade.
Do outro lado, a cidade arde.
Não como exceção,
mas como método.
O fogo aprendeu a durar.
Tornou-se hábito,
paisagem.
Helicópteros reescrevem o céu,
explosões educam o chão,
e os pássaros,
esses que insistiam,
foram substituídos
por ruídos que não pousam.
Há crianças que se escondem
atrás de cadernos.
Dez matérias contra o calibre.
A matemática nunca fecha,
mas ainda assim é ensinada.
O incêndio é contínuo.
Não pede licença,
não distingue nomes,
não conhece exceções.
Ele não grita: permanece — bem, por vezes grita.
Eu caminho ileso.
Nenhuma chama toca minha pele, a que toca não me fere.
Meu corpo passa:
inteiro, funcional, disponível
para o dia seguinte.
Ser incólume ao caos também é um pacto.
Uma forma educada
de não interromper o almoço,
de não alterar a rota,
de não chamar isso de escolha.
Ainda assim, algo em mim queima
sem deixar marca visível:
um resto de paz,
um fragmento de humanidade
que não se recompõe.
Arde o que não sangra.
Arde o que não vira notícia.
Sou uma bailarina
no centro do incêndio.
Enquanto tudo cede,
eu finjo coreografia.
Plié.
Tendu.
Jeté.
Rond de jambe.
Fondu.
Frappé.
Repito os gestos
até que pareçam naturais.
Até que o corpo esqueça
o que está evitando.
Enquanto danço,
o fogo aprende meu ritmo.
Adapta-se.
Não me persegue.
Me contorna.
Sei que piso em cinzas.
Elas cedem sob o peso exato
de quem não cai.
Algumas são restos de casa.
Outras, de nome.
Outras, humanas.
E sigo.
Em equilíbrio.
Em graça.
Em chamas.
Continuo dançando
para que o fogo
não precise aprender a parar.
Eis a definição de cúmplice.

Fim de “Incólume”.