6º lugar1º Bula Prêmio de Poesia 2026
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O friso branco do sol
sobre o ar de amônia e ureia
no quintal
sustenta o entardecer de sábado
e o vazio (feito
galinha encachaçada
de cerveja)
rebenta
na mesa da cozinha
onde a avó trescalava a fumo
e açúcar de cana
de modo que a luz
escorrendo morna de leite e de rosas
(como abelha
a converter açúcar em crepúsculo
e fabricar a cera
do próprio cortiço)
engendra o tempo acabado
que ainda conserva o doce
bolor de bananas e uvas verdes
reunidas no alguidar
perto de onde a avó
cosia a blusinha
azul-bebê
da dona Dulce.
Em outono seco
ou verão endiabrado
toda segunda-feira
debaixo da noite lavanda
e preta a avó
decifrava a voz
dos búzios
no quartinho dos fundos
onde recebia
de meu pai
além de robusta descrença
o charuto robusto.
Do couro de seu fumo
afluía
a esperança de reaver o sonho
ressequido pela vida
ou o amor
perdido em uma praia branca
no domingo
além (é
claro) de vinganças
e ofertas de emprego
na empresa da Mônica
— trapaças
da sorte e injustiças
de toda sorte
a serem repartidas
entre o Elias açougueiro
a biscate Maria Amável
os gêmeos Arroz e Feijão
e muitos outros
que partiram para sempre
e frequentavam a última casa
da vila número 666
no bairro da Tijuca
que sumiu
e levou seus orixás.
Agora revejo tudo
sob esta nuvem negra de mosquitos
a circunavegar a água doce
da lembrança —
a sílaba que inaugurava meu caminho
tão sozinho
saía daquele pequeno espaço
limpo
e lavado de luz
dos olhos enrugados
da minha avó.
Hoje quando disfarço
a alegria
neste copo americano de vidro
em que avultam
o veludo do carvalho
e a flor da jaqueira
destilados em cachaça mineira
reencontro minha avó.
Sentada na cabeceira
da mesa da cozinha
o porte altivo
de quem
com sua reza
ergue diariamente o sol
para quatro filhas
e portentosos agregados
entre o café coado
requeijão e bisnaguinhas
ela cheira a leite
e mel de oferenda
e aguarda os netos pequenos
voltarem da pelada
alguns saciados
de vitórias
outros como eu
de joelhos ralados
porém todos
ainda inquebrantáveis
sólidos ainda
como noite de concreto
armado
e famintos (tal
qual o azul
profundo
da memória)
de amor.
E farofa.
Quando ultrapasso
encharcado de vida
a porta amarela
da cozinha
minha avó fixa em mim
seus olhos
macios de amora
e diz:
Jesus te proteja
as almas te iluminem
teu anjo da guarda te guie
meu filho.
Mas faz tempo vó
que meu anjo da guarda
que as almas
que Jesus
assim como os orixás
os gêmeos Arroz e Feijão
a biscate Maria Amável
o Elias açougueiro
a Mônica e sua empresa
a dona Dulce
e meu pai
— faz tempo vó
que eles perderam o viço
e meu pai
o odor de rosas
do sabonete Phebo de glicerina.
