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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

A Peste (2020)

imagino as teias de aranha nas hélices de todos os aviões,
uma ferrugem que cresce nos dedos dos amantes.
imagino os batons junto aos sonhos ressequidos nos armários,
um silêncio que se espessa sobre o banco de todas as igrejas
e um deus que tenta ouvir a oração de ninguém
enquanto os sinos continuam a soar.
a resposta é apenas o uivo de todas as cadelas,
o retorno dos pássaros – sem desespero,
e a abertura de um horizonte sem deus.
dentro dos bares, o silêncio bate nas paredes
e na desolação de todas as mesas
enquanto os homens e as mulheres retiram-se à mesma
insularidade.
não há mais a profilaxia dos contratos,
dissipados na urgência da vida insegura,
sem cerimônias, sem cortejos, sem falsos pactos.
imagino as teias de aranha nas hélices de todos os aviões.
das glândulas sai a seda puxada pelas pernas só supostamente fracas.
mas a trama da teia é cinco vezes mais forte que o aço,
mais elástica que o náilon.
dizem que pode servir como colete à prova de balas,
que tem potencial energético maior que o da bomba atômica
de nagasaki.
nela se inspiraram as meias das putas, as redes de pesca,
as malhas.
ao fim as aranhas comem suas próprias teias,
mariposas também morrem ali.
mas sabemos que o seu canto não é feito de aço,
que o aço dos homens nada pode contra as sereias.
é por isso que os aviões imensos
parecem agora tão solenemente acanhados.
as teias das aranhas
ganham lugar no abandono das coisas – das casas.
os cientistas dizem que, se o fio da seda fosse da espessura de um lápis,
poderia parar um em movimento.
eu digo que poderíamos, com esse lápis, reescrever um mundo,
numa escrita que não se desviasse de seus desastres.

Fim de “A Peste (2020)”.