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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

À Sombra do Escondido

Não são versos. Isso é mais um enigma
Paul Valery (A árvore)
I
Quando o filho se matou, fomos tomados por arrependidos sem saber. Em suas mãos, como lesmas, tremiam ainda os solilóquios do medo: por quê? E, sob a barba branca, nos vincos altos da testa, por trás dos olhos e nos nervos, o carrossel com figurinhas de homens e cavalos: as dúvidas. Nas mãos que tremiam, o concílio das bestas: as verdades eram lesmas sonolentas e sem alteridade. O homem criara um filho e um cavalo. Qual desvelo? Qual fermoso? O outro era bonito mes’morto. Sim, ouvia de sigo, moldara o cavalo, mas não mudara o outro. Os vermes repuxavam como rédeas as artes do ofício. O primeiro talhara a ferro e chicote. O outro: nos aferros da alma, os açoites da morte.
II
A manhã crispava toldos no quintal. Melhorou, depois continuou: era domingo. Não era mais como dantes. Era como deslindar em versos o chio da manhã. O poema crispava rastilhos de verdades sem cor. Colorida, a manhã crispando toldos evaporava tangerinas de asas quando. Lenira me olhou. Olhar tão fundo. (A panela de pressão chiava na cozinha.) Havia anos não me olhava com remorso. Terras da promissão, olhar tão fundo: “Quanto tempo!...” parece que foi ontem, aliviei. Escorpião na terra. Borboletas amarelas sobre a relva. Interjeições alucinadas na sala cravejando o peito do morto — alguém sentiu desejo: não dizer, alguém sentiu saudade: não dizer. Pelos dentes, pelos quentes. C’est fini.
III
Não há dialética sem as desinências dos cacos; como não há sabedoria sem a gramática das sombras. Era de novo manhã. Sempre ela, como um castigo ou dívida. Um beija-flor desenha interjeições alucinadas: oh!... Senhorinhas sem sossego cravejam as ferraduras do cão. Fiquemos no abraço... Palavras demais ensurdecem (paga-se caro não ser surdo — eu mudo). Por isso esse poema em três versículos sobre o nada. Skrik sombra e torvelinho no entorno da casca.

Fim de “À Sombra do Escondido”.