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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

O Silêncio da Margem

O rio é turvo
desde que estamos aqui
desde as curvas que contornam o Areião
desde os afluentes que brotam em cada casa
turvo como Leite de Rosas
Eu sei, o cheiro é outro
Já derramei todo um frasco
na cerâmica rosa da pia
Minha vó o guardava na janela
do banheiro de azulejos amarelo e preto
junto aos batons de rouge, de boca
e um polvilho antisséptico Granado
Eu sei, eu não gostava do cheiro
Num outro tempo
ficavam também ali, junto ao Leite de Rosas
um pincel de barba, uma caneca de lata
e uma flor de gilete, que se abre ao desrosquear
cortando a ponta de dedos curiosos
Mas isso foi noutro tempo
Eu sei, minha vó morreu sozinha
Fui eu mesma
que levei seu corpo para a outra margem
boiando de bruços no rio turvo
deitado de fasto e arroxeado
como dormem os afogados
enlaçado na trama do junco
como na esteira da própria casa
E lavei seu rosto com o leite de rosas do rio
porque houve um tempo em que amei o seu rosto
E aprumei seus cabelos com o pente das mãos
porque houve um tempo em que amei seus cabelos
E esperei sozinha como a minha vó
E esperei incrédula como se não soubesse
Eu sei, fui eu mesma
que levei seu corpo para a outra margem

Fim de “O Silêncio da Margem”.