Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
A Lápis
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
Rabiscar, apagar e reescrever palavras
Reavaliar decisões
Reformular pensamentos
Recalcular planos
Traçar rotas melhores
Escrever a lápis é ser transitória
Tomar para si a beleza das perenidades e das intermitências
Só assim deixo rastros de quem andei sendo nos tempos
E aponto rastros de quem teimosamente talvez eu ainda queira ser nos tempos
Olho
Reolho os movimentos e as curvas de cada letra
Revejo os riscos,
As coragens desistidas,
Os impulsos apagados,
As certezas moderadas e inconclusas
Os talvezes realizados
Os quereres temporários
Os orgasmos rarefeitos
Cicatrizes em papeis de qualquer cor
Cicatrizes que me lembram que o transitório manda embora costumes que quis e não quis
Cicatrizes-pessoas que me deram seus piores presentes
Marcas das emoções feridas e expostas
Rabiscos de si deixam entrar afetos de papel amassado
Eles ganham morada como se verdadeiros fossem
Escrever a lápis tem me lembrado da exígua e quase transparente presença de quem era risco certo.
Parecia natural misturar as cores do adoecimento com as da fraternal amizade assídua
Mesclar gotas de amor com mares de fel
Há dias em que, diante de uma trama revista, um leve traço de saudade cor de rosa aparece
Rascunho desejos de presença
Mas olho nos olhos dos enganos que são maiores do que suporto
Encontro fantasias muito bem elaboradas:
Jardins maravilhosos, árvores frondosas, rios refrescantes, pássaros e borboletas
e muitas palavras ditas com qualquer simplória, ínfima e perversa dedicação.
Rascunho desejos de presença
Observo a letra fina e quase elegante
Puxo o último fio de escrita mal apagada
Toco com meus dedos cada pedacinho daquela linha de lembrança
Eu me lembro daquele risco:
Os pequenos gestos maldosos
As suaves desqualificações
As convenientes distrações
Os lampejos de presença
As ausências calculadas
A expulsão milimétrica e afável
A crueldade educada e gentil
A fala calma e ardilosa
Um grito disfarçado de preocupação
Deitada e abraçada com minha racionalidade,
Estico a desalmada linha e a devolvo à página
Ela me olha meio esquálida e medrosa
Vejo sua surpresa indignada e vingativa
Sabe do que foi capaz
Não a reapago
Deixo-a ali, inerte diante dos meus próximos movimentos
Que assista o esplendor do desadoecer
Fui o alfabeto possível, mas grandioso
Ou o texto que melhor pude escrever nos meus tempos difíceis
Os traços onde meus olhos pousam me lembram que eu não estou mais naqueles passados
Palimpsesto meus eus com outras escritas intensas e suficientes para as medidas dos meus tempos
Trabalho com lápis todos os dias porque com eles perpetuo os mais diversos exercícios de mudança
Da minha cabeça negra, invoco o melhor dos futuros:
Reposiciono as histórias
Meu lápis me guia para o descanso pleno e bem remunerado,
Para amores em movimento,
Para casas de afeto germinante,
Para tranquilos existires diversos,
Para gentes sem medo de caminhar pelo mundo,
Para saberes valorizados,
Para desapagamentos necessários,
Para coletividades humanizadas
Para Artes além da Grande Arte
Para Pensares
Para Sentires
É o que cada lápis de viagem me diz
De cada lugar, trago um que não me desaponta.
Eles me expandem e me ajudam a voltar ou a seguir.
