Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
A Chegada
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
Se você vier
E vier menina,
Vestida de princesa,
Com coroa de alfenim
E manto de algodão-doce
E seguir por esse caminho,
Somente por esse caminho,
Unicamente por esse caminho,
Montado com blocos de lego
Perfeitamente encaixados,
Atravessando pontes de lápis de cor
Alinhados por tonalidades irmãs,
Pisando em miçangas crocantes
De todas as cores.
E se você vier sorrindo,
Alvorecendo os dentes de leite
E se vier cantando a ciranda, cirandinha
Da cantiga da roda,
Do seu mundo ainda imaculado.
E se você vier bailando
Por eternidades que só a infância torna
Açucaradas e prováveis,
Com a solidez da certeza imediata e boa,
Em cada sapatilha de seda.
Se você vier
E vier por caminhos encruzilhados
Cada um com seu próprio sol,
Cada um com a sua própria estação do ano,
Só para você e somente você, escolher.
Você escolheu a primavera e por isso
A sua inocência não irá me encontrar.
Pois a minha alma invernou aos oito anos.
Se você vier
E vier mulher,
Vestida de rainha,
Com a coroa de esmeraldas
E manto de caxemira azul
E seguir por esse caminho,
Somente por esse caminho,
Unicamente por esse caminho,
Para as incertezas que esperam
Fora dos portões do palácio;
Atravessando pontes de madeira e cabos
De sustentação, que o vento agudo
De cordas de violinos balança
E entrega dentro do espírito,
O maravilhamento da vertigem única,
No espaço limpo,
Sem as amarras da gravidade segurando o corpo.
Ah... E você sorri.
Se você vier sorrindo,
Se você vier cantando,
Se você vier dançando
E deixar pelo chão a rainha postiça
E ser apenas mulher
E aparecer nua,
Saindo do vapor das nuvens,
Os pelos púbicos eriçados,
Os mamilos entumecidos,
A respiração ofegante
Quando pisar os caminhos encruzilhados
E não escolher o seu sol,
Nem a sua estação do ano;
Porque ficou com medo de me encontrar
E se entregar.
“Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta meia vamos dar.”
Deu meia volta e entrou no fumo das nuvens.
A minha alma gemeu do outro lado.
Se você vier
E vier corvo,
Com a coroa de pregos
E cajado de serpente
E seguir por esse caminho,
Somente por esse caminho,
Unicamente por esse caminho,
Que se embrenha na escuridão imaculada,
Onde residem os perdidos.
Onde não há travessias
E o ar é escasso e a água é rasa
E podre.
A terra do sol apagado...
O lugar sem as estações do ano,
Nem ano, nem tempo, nem nada;
Só o mesmo cu miserável,
Sempre; os olhos se acostumam
Porque ficaram cegos de tão secos,
Sedentos de luz.
E no meio dos caminhos encruzilhados,
Bem no meio dos caminhos encruzilhados,
Você irá me encontrar.
Talvez de cócoras,
Talvez de joelhos,
Riscando o chão com as unhas,
No jardim das urtigas.
Os meus olhos secos se erguem,
Pois só você ouviu o meu grito
E chegou.
