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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

O Brado da Dandara dos Palmares

Sou Dandara
dos bantus filha
benção de Nzambi Mpungu
sou caçadora guerreira
nasci livre morro livre
livre o marimbondo
nascido da minha língua
com o ferrão da minha ira
os ares são livres
as ondas nos mares
os ventos do leste
o verde no agreste
livre é Zumbi companheiro
cria senhor
do Quilombo dos Palmares
do Rio Mundaú ao mar
meu corpo seu leito
seiva segredo das crateras
entre bundas e coxas
o prazer do cafuné
dengos em noites fecundas
no despregar das manhãs
o banzo na madrugada
um moleque dois moleques
sem cochilo com cuidado
cem guerreiros a lutar
outros mil que vão chegar
***
o entrelaçar das miçangas
pedra a pedra e devagar
pega o jeito da Yá
pega no feito de Ogum
no arfar da enxada
o batuque da cuíca
na ginga da capoeira
o guardar dos mantimentos:
canjica fubá farofa dendê
o polir da ferramenta
o forjar das novas letras
bem dita língua dos bantos
argila de construção
semente em campo agreste
moro em todas as pegadas
me demoro nas curvas dos rios
me ancoro entre montanhas e vales
no alto da serra densa no umbigo
da Barriga
seio do abraço da terra
sei o segredo das plantas
as manhas dos animais
artimanhas nas viradas
negra minha pele
o brilho da lua no negro dos olhos
fortalezas escondidas iluminando os dias
estrelas arregaladas ao frescor
das madrugadas
virgens matas conquistadas
escondidas pelo sol
***
o navio aportou
na carga a marca o grito do mudo
no surdo do ouvido
a pele salgada de púrpuras rosas
desfolhadas em golfadas
na ponta da chibata
mais um negro fugido
ia virar burro de carga
saco de pancada
calado na mordaça
surrado na mortalha
marcado à ferro e brasa
virou irmão da noite
mais um guerreiro em Palmares
a princesa virou escrava
foi servir à sinhá
seviciada servia de comida ao senhor
no pescoço a cruz tortura de mais um dia
no ventre a semente
de um ente deserdado
mais um pobre desterrado
busca terra diferente
mais uma guerreira em Palmares
***
barulhos de espoletas
facões rasgando o espaço
rompendo cercas pastos plantações
choças ardendo
bazucas limando troncos
homens caídos corpos amontoados
aço contra ventres nus
crianças mulheres guerreiros
sonhos fumaças quimeras
entre danças de corpos caídos mutilados
passa Dandara uma ave uma garça
um grito um gato
sobe o morro
invade as matas corre
- cadê Katendê?
me dê as ervas da cura
salgando entranhas
nas brenhas das matas
- cadê Quibanda?
quero meu corpo fechado
dos quebrantos do viver
nos meus trapos o meu sangue
de grilhões arrebatados
corre Dandara- corra!
vira árvore - vire ave!
voa - voe Dandara, voe!
corta o céu vence abismo!
vira bruma cerração zelação
elegia lenda elo eco
que não mais vai se calar
que não sabe sossegar
virou rugido furação
estrondo de mil trovões
enxurrada em tempestade
alimento na tormenta
queimadura em selva escura
desassossego aflição
ébano fel ferro
barro imagem linhagem
do instante guardiã
fogo fátuo latejante e sem parar
fantasia que ilumina
fantasma que nos inspira
luz primeva
purgação provação
e redenção.
NOTA:. Exemplos de palavras originárias do quimbundo/banto aqui utilizadas: banzo, bunda, cafuné, cochilo, miçanga, canjica, dendê, farofa, fubá, marimbondo, moleque.

Fim de “O Brado da Dandara dos Palmares”.