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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Língua Legada

os portugueses quando chegaram trouxeram a palavra saudade
mas não a escambiaram com ninguém, avarentos que eram
nem a madeira, nem a cana e nem mesmo
o loiro metal
valiam tanto a pena
apenas badulaque, espelho
alma pequena
e é por isso que hoje ninguém tem saudade deles
atesourada, a palavra saudade acabou esquecida
nas letras empoeiradas do fado
e nos porões embolorados
(contentores de tantos fardos)
de enfunadas caravelas
recicladas depois
em navios tumbeiros, de cujos porões
a palavra saudade
enfim desembarcou
na américa
mas já desvairada
por enclausuramento
e mesmo assim
somente dentro
de bocas forasteiras
em forma
onomatopeica
de urros
in-
son-
dáveis
como as mais fundas entranhas das águas
mortíferas
e as mais internas penas
das aves marítimas
e é por isso que a palavra
saudade
ainda que pronunciada só
em pensamento
mesmo sem a propagação
em onda e pó
da mecânica do vento
abriu tanta distância
entre dicionário
e sentimento
e é por isso que a palavra saudade
afinal não vingou
em léxico
estrangeiro
adormecida que foi, e permanece
oca de nexo
em cavidades úmidas
e entocada
nos mais subterrâneos pesadelos
e assim permanece
intocada, em estado
dicionarizado
de s.f.
maximamente intraduzível
entalada
no meio da garganta
do português.

Fim de “Língua Legada”.