Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Réquiem Clandestino
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
o que machuca em tua morte
não é, não foi, você sumir
você jamais esteve lá
para mim, não fez muito mais
que o esquecimento do mundo
tua alegria indiferente
inocência frívola
sequestrada pela saúde que
nenhuma
vida
tem
era um perigo e
já rendeu um x-salada
de pura
generosidade
também a história do morro que nos olha e persegue pela go 060
e depois de longe eu gostava de sentir-me em casa
no pau-a-pique da tua gargalhada
dói saber que não aguentarias a perseguição da estrada insone que levou teu
[menino
megera de merda
por que você não gritou na cara dela? por que você não fugiu? por que você não rasgou não arrancou de si os trapos da linguagem?
por que você não me chamou para urrar contigo
um epiléptico
igual às cuias
flauta-arraia entre as tísicas
da lua
e não me contou sobre o ritmo tortuoso
dos maracujás?
eu sei, não é meu este conto
a mim, fere talvez a história que leva
a criança que fui
faz tanto tempo
o corte
e a falta feita de teu traço, como outros riscos da mesma tinta
mas tudo virou este verso noturno
dói o tecido de flagelos
teu tapete tolhido
no atalho sem voo
teu pensamento
não tenho parte em nada disso
mesmo que doa
saber
teu salto no dorso
do cavalo coxo
cujo nome é o céu
teu protesto barbudo
nunca proferido
qual moeda atravessada
à garganta do acaso
POR
QUE
VOCÊ
NÃO
GRITOU
tarde demais
agora não quero ver
a cena do hospital
escolho este réquiem contra
O ENTULHO DOS TUBOS
não vou ver descer o caixão
não as carpideiras de sempre
à espreita do momento
largas arengas, bandeiras
trágicas em máscara
amargomel
enchente em que se afogam senis
maledicências
o destino, a puta fiandeira
tecida na coxa
de uma moça em trindade
fofocas, antigos
ressentimentos
não tenho parte em nada disso
eu sei, porém, que lá no fundo
tu gostarias, assim imaculado, e meio entediado
por te meterem nessa condição de cadáver
de desertar essa opereta
pra ver a roça verde
virar vereador
pescar lambaris
fritá-los
babar da beleza dos bois
tomar uma pinga
e
à entrada da palhoça
esquecer a presepada
que nós, os maconheiros, os pretos, os índios, as bichas
e os doidos
ainda temos boca
para chamar de vida
