Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Varizes do Brasil
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
mas matar os pássaros é função anatômica]
no meu laboratório avançado
onde pratico a ciência?
Há legionários correndo campos de batalha
e estão derramando mel e sopa na nossa consciência.]
Há verdades que dormem sob as pedras
e há ditos presos nos estômagos dos ursos.
Há torturados incendiando masmorras
e há negros gemendo o sono dos séculos carregados no açoite e na cor.
Há noites longas e incolores e
auroras vermelhas
que não conseguem confundir o fogo-fátuo
de cadáveres e
mãos crispadas e
espadas opacas que
não são vistas mas
cortam e dilaceram do mesmo modo.
Há.
Há o sossego de borboletas e besouros
e a violência de um acasalamento
de aranhas -- há o amor escancarado
em mil sexos venéreos e há a dor de um aborto e o sangue de uma gengiva uterina.
Há imagens que vão sendo descobertas e há necessidades]
inadiáveis e incertas.
Há surpresas nos véus da fantasia e há fantasias que esperam o azar de um espelho quebrado de mil anos.
Há migalhas no chão no fim da festa e há ladrões]
roubando vidas no meio das frestas. E há trevas.
Há um espaço curto entre os Andes
e o mar das coxas de Ipanema seios.
Há filtros de sóis aos milhares na mata Atlântica]
e há guerrilhas aguerridas fincadas na cordilheira atônita.]
Há um mundo de ostras na boca dos lobos
e há matilhas lúcidas
perdidas nos meios dos loucos e
há pérolas encravadas no umbigo
da terra
da pedra
do lodo.
Há cães ladrando
para o nome da lua
homens dançando
para o lume da lua
gatos matutando
para o lume da lua
o sonho dos ratos
para o lume da lua
(tesouros desterrados
em torres de europa)
para o lume da lua
(corpos dourados
em ruinas astecas)
para o lume da lua
(hortos regados com o sumo de olhos
feridos à faca cega).
Para o lume da lua,
há estrelas cadentes abrindo veredas
nos campos
há arados estelares desobedecendo mapas
dos campos
há uma voz rouca que levanta
e comanda a insurreição,
de fêmures em punho
a insurreição!
ao hino afinado de todas as bocas]
índias
negras
brancas
translúcidas
que se abriram no movimento eterno]
de dor violentada
de dor escravizada
de dor torturada
de dor roubada
sugada
espremida
dor parida
nas lágrimas salgadas
(quanto deste teu sal
são frotas de Portugal?)
nas bocas esgarçadas
nos dentes quebrados
e nos filhos que nasceram cariados.
A insurreição!
carregada na bandeira tropical
roubada aos ares coloridos
dos milharais
mandiocais
várzeas
e
varais.
(um poeta deflora o pavilhão
caem frutas doce esperma pelo chão!)
Há insurreição!
cabeleiras incendiadas em canaviais de ideias]
sábios considerando razões com sabor de geleia]
soldados e oficiais abrindo celas
e se trancando nelas
com cadeados de esperança.
Há segundos que premeditam minutos
e há horas que nunca chegam a completar
um dia
um ano
muitos séculos.
Há jardins clandestinos a exalar o cio das flores
moendas e engenhos destilando o suor das canas]
para a alimentação
e sedução
dos milhares.
Há um cheiro doce, cheiro chumbo, rapadura, pesodoce]
melado e pasta
de ossos e febres
de coitos enclausurados nos elos dos grilhões]
que importa beber
e esquecer, aquecer, enlouquecer.
A insurreição!
O delírio!
Há um rio sinuoso, rio longo, serpentina,
cujo leito são brilhantes que se fazem gelatina,
que logo nos seduz
e alucina.
O delírio! mãos que percorrem teu corpo, mulata gostosa, mãe incestuosa, puta redentora;]
teu corpo palco da minha insurreição
teu corpo meu prazer e aflição,
refeição!
Zumbido incessante de transformador prestes a explodir,]
barulhos de guizos e foguetes, obuses e o-bu-zes...]
velhos rindo em altas tosses pelas janelas madrugadas e]
granadas casas pelos campos ruínas construções (isto mais parece
stalingrado onde estarão os alemães?) fugindo pela lavoura em triciclos]
filhos da aristocracia empinados empalados nos arados corados nossos rostos vermelhos em atenta combustão.
o fogo redentor!
cruz de labareda veio nos salvar!
Mãos pesadas risonhas acolhem em seu meio
loucos incendiários ardendo em anseios
-- e todos são bem vindos! em sua ânsia e tentação]
todos são bem vivos,
nascem com o fogo,
seu antigo motivo de condenação.
Há um cão apocalíptico a morder sua própria cauda,]
e seus sete filhotes são sete homens que proclamam]
um novo gênesis.
Há uma menstruação repulsiva que se descola da historia]
provocando vômitos, mitos e valores,
invertendo ventos, explodindo montanhas,
transfigurando a poesia:
nossa doce herança
legada pelos gens
da heresia
é soprar os dedos
tentando congelá-los
de pavor
ou euforia.
