Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Casa de Sal
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
No litoral tem uma casa agora hostil
que sua frio pelas paredes
como pele febril.
Agora ela é minha,
mas não me pertence.
como pele febril.
Agora ela é minha,
mas não me pertence.
Não foi luta, não foi sina.
Caiu do céu insistente.
Ardente e permanente.
Foi herança.
Nada de esforço, suor ou pujança.
Nunca trabalhei.
Por décadas eu passei
e nunca trabalhei.
Dizem que trabalho pede mente boa
e a minha, eu nunca sei.
Você saiu e deixou as malas.
Para onde foi, meu fantasma sem fala?
Bruxa — ouviu? Bruxa seria.
Quem mais poderia me deixar morrer assim
sem me dizer,
sem assistir e então intervir
a casa ceder sob mim?
Como você se desprendeu assim,
mãezinha
se éramos unha na carne
fundidas,
sem margem de corte?
Desde que você foi embora,
jurando que nunca me deixaria,
a casa começou a chorar a própria água produzida.
Primeiro nas juntas do azulejo,
depois nas quinas do teto, eu vejo.
Agora pinga no meio da sala,
essa sem-vergonha desvairada.
Mãe,
o que você fez?
Furou a fila, apressou a própria vez.
A lâmpada da varanda pisca sempre às 2:34.
Sei que é você tentando falar sem som.
O que quer me dizer,
e por que nesse tom?
Caiu do céu insistente.
Ardente e permanente.
Foi herança.
Nada de esforço, suor ou pujança.
Nunca trabalhei.
Por décadas eu passei
e nunca trabalhei.
Dizem que trabalho pede mente boa
e a minha, eu nunca sei.
Você saiu e deixou as malas.
Para onde foi, meu fantasma sem fala?
Bruxa — ouviu? Bruxa seria.
Quem mais poderia me deixar morrer assim
sem me dizer,
sem assistir e então intervir
a casa ceder sob mim?
Como você se desprendeu assim,
mãezinha
se éramos unha na carne
fundidas,
sem margem de corte?
Desde que você foi embora,
jurando que nunca me deixaria,
a casa começou a chorar a própria água produzida.
Primeiro nas juntas do azulejo,
depois nas quinas do teto, eu vejo.
Agora pinga no meio da sala,
essa sem-vergonha desvairada.
Mãe,
o que você fez?
Furou a fila, apressou a própria vez.
A lâmpada da varanda pisca sempre às 2:34.
Sei que é você tentando falar sem som.
O que quer me dizer,
e por que nesse tom?
Hoje eu tive um sonho
Você tinha encontrado a chave
daquele quarto branco
onde você e papai concordaram
em me fechar na adolescência
na esperança de tratar a minha cabeça.
Papai não teve paciência comigo
nem por um segundo
se foi, sem coragem de ficar aqui
entre duas mulheres solitárias
que aprenderam a sobreviver assim.
Deixo-o ir:
Homens não suportam o que não entendem,
temem sempre o que os olhos não apreendem.
Grudada à parede, escorada no corrimão
encosto o ouvido e faço concha com as mãos.
Assim se escuta mastigação,
a casa comendo o que ficou
abrindo espaço como porão e
encomendando um novo chão.
À tarde o corredor incha, ele mudou.
Fica mais estreito, como se negasse passagem direito.
Tenho dormido naquele tapete que pinica
o do chão da sala
cheio de pó e formiga.
Não consegui explicar isso pra Judite,
porque me escondi.
Ela bateu cedo aqui ontem, e eu
ainda estirada no chão, não abri.
Deixei o silêncio agir e a metida sumir.
Essa sua amiga Judite sempre foi cheia de si
inflada de orgulho até no jeito de sorrir.
Fingia amizade desde a infância,
com a naturalidade
de quem sabe mentir.
Os pronomes apodreceram
como resto que ninguém comeu.
Não há mais meu, seu, nosso,
morreu.
Já não sei mais qual santa serve pra qual mazela.
Bárbara não salvou você
deixou a enchente te sugar pela goela.
Lembro como implorei a ela
no dia do dilúvio que te levou,
minha estrela.
Mas não sei se ela presta, mãe,
não tive chance de te avisar,
que tristeza.
Blasfêmia? Concordo, talvez.
Mas como chama quem devia vigiar
e, no auge da aflição, resolve se afastar?
Outro dia encontrei sal na minha língua,
igual à água do mar que nunca fui visitar.
Você que cresceu com o mar na janela,
deixou na minha boca
essa cicatriz nada singela.
A casa desaprendeu a viver sem você.
Se voltar, talvez nem entre.
E se entrar, vai encontrá-la roída,
mais pálida que a sua pele dourada de sol,
e mais salgada que a água
que nos abriu essa ferida.
Você tinha encontrado a chave
daquele quarto branco
onde você e papai concordaram
em me fechar na adolescência
na esperança de tratar a minha cabeça.
Papai não teve paciência comigo
nem por um segundo
se foi, sem coragem de ficar aqui
entre duas mulheres solitárias
que aprenderam a sobreviver assim.
Deixo-o ir:
Homens não suportam o que não entendem,
temem sempre o que os olhos não apreendem.
Grudada à parede, escorada no corrimão
encosto o ouvido e faço concha com as mãos.
Assim se escuta mastigação,
a casa comendo o que ficou
abrindo espaço como porão e
encomendando um novo chão.
À tarde o corredor incha, ele mudou.
Fica mais estreito, como se negasse passagem direito.
Tenho dormido naquele tapete que pinica
o do chão da sala
cheio de pó e formiga.
Não consegui explicar isso pra Judite,
porque me escondi.
Ela bateu cedo aqui ontem, e eu
ainda estirada no chão, não abri.
Deixei o silêncio agir e a metida sumir.
Essa sua amiga Judite sempre foi cheia de si
inflada de orgulho até no jeito de sorrir.
Fingia amizade desde a infância,
com a naturalidade
de quem sabe mentir.
Os pronomes apodreceram
como resto que ninguém comeu.
Não há mais meu, seu, nosso,
morreu.
Já não sei mais qual santa serve pra qual mazela.
Bárbara não salvou você
deixou a enchente te sugar pela goela.
Lembro como implorei a ela
no dia do dilúvio que te levou,
minha estrela.
Mas não sei se ela presta, mãe,
não tive chance de te avisar,
que tristeza.
Blasfêmia? Concordo, talvez.
Mas como chama quem devia vigiar
e, no auge da aflição, resolve se afastar?
Outro dia encontrei sal na minha língua,
igual à água do mar que nunca fui visitar.
Você que cresceu com o mar na janela,
deixou na minha boca
essa cicatriz nada singela.
A casa desaprendeu a viver sem você.
Se voltar, talvez nem entre.
E se entrar, vai encontrá-la roída,
mais pálida que a sua pele dourada de sol,
e mais salgada que a água
que nos abriu essa ferida.
