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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Peso Específico

Ele acorda.
O corpo, antes do juízo, já aceso.
O ar entra como quem atravessa um terreno sem escritura.
No peito, o cálculo não pede assinatura.
A casa cedeu em pontos precisos.
Não caiu: passou a faltar com método.
Vigas seguram o resto.
O chão responde sob a sola com um som curto.
Cada passo negocia com o erro.
Há ruídos que não procuram o ouvido.
Cortam por dentro — fenda.
Depois, o espaço muda de função sem aviso.
Os mortos não ocupam.
Inclinam.
Ensinaram ao corpo um modo novo de ficar sem garantia.
Ele escreve de pé.
Pouco.
Como quem retira estilhaços com a unha, medindo a pressa do sangue antes que ele fale.
A palavra pesa.
Se falha, acende.
Por isso corta até o nervo do sentido.
Deixa apenas o que atravessa sem convocar olhos.
Do lado de fora, o tempo segue inteiro.
Aqui, organiza-se em torno do resto.
À noite, o céu, um trabalho.
Clareia.
Depois, apaga.
Ele fica.
Não inteiro. Em função.
Quando tudo avançar (sabe que avança), não haverá relato, nem nome, nem versão segura.
Só este ponto — falha exposta —
onde a linguagem aguentou presto o peso do fim,
não virou poeira,
e deixou, como depósito, o resto.

Fim de “Peso Específico”.