7º lugar1º Bula Prêmio de Poesia 2026
-Destino
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
A língua deste gentio toda pela costa é, uma: carece de três letras – não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.
Pero de Magalhães Gândavo (1576)
A, bê, cê, dê
Fê, guê, lê, mê
Nê, pê, quê, rê
Tê, vê e zê
Luiz Gonzaga, Zé Dantas (1953)
cabôco
tu vai pá distóca maizêu?
você cochichava
às cinco da manhã
o céu ainda todo noite
a candeia acesa ditava
o começo do dia
na casa
eu atendia
seu chamado
pianinho
de sopapo
o sono em suspensão
a menineza também
kichute nos pés e
seu cuscuz no bucho
saíamos
só nós dois
sob o sossego
da andança
desde muito cedo
tudo na caatinga
me encantava
a mandassaia
o angico
o sabiá
o ingongo
a quixaba
o pé-de-juá
minha tez acomodava
cada miudeza
quieta
você assistia ao mundo
se apinhando em mim
suas vistas contentes e
beiços esticados
me diziam
tô viva
qui bom
tudo em você
me encantava
a bainha
dançando
suas ancas
a capanga
beijando
sua tíbia
o badogue
no cangote
puído
cuidando meu passo
você pegava minha mão
quando a gente passava
no açudinho
o cabo da enxada
me deixava
meio bambo
você tinha medo
que eu caísse
mas nunca
caí
você me contava
que seu painho Anísio
matava onça e caninana
como se matasse mosca
que sua tia Bibiana
meteu chumbo em um deputado
abastado que desviava água
que sua bisa sem nome
capou um macho que tinha
machucado uma vizinha
você me contava
dessa nossa
genética destemida
como se me dissesse
tu tombêin tá vivo
qui bom
acabada a destoca
você acendia o pito
com a ponta dos dedos
usava o mesmíssimo
gesto
no chão
tateava a sequidão
como se a beijasse
boca de Mãe-da-Mata
boca de viva deusa
dos tempos de antes
as chamas
que saíam de você
tingiam o xique-xique
batismo
em tons de mamão
caju cajá
maxixe
meio ao incêndio
você domava o pó
guiava o destino
nossos vestígios
chegando em casa
o dia já desanuviado e quente
você passava um unguento
nos meus dedos açoitados
as unhas quase azuis
pediam babosa
aveia
babatimão
chás de goiaba e
capim-santo
umedeciam as manchas
se quedando na coxa
mesmo assim
nada doía
depois do banho
até gostava
dos novos mapas
conquistados
vaidade
que só se ganha
nascendo dos cacos
a cabeça
única coisa que me pesava
mais de vinte anos depois
ainda pesa
todo dia
pédi cum tento
qui Sant’Antão acódi
na chamada
você dizia
má cabôco
condé qui tu vóta du sônpá?
o nome da cidade
detido na bagagem
de teus dentes
uma mágoa me engasga
a cidade me pesa
duas onças sob
minha ossada
minha boca
uma cova
de umbus azedos
ano que vem
minha vó
digo
mesmo sabendo
que estou mentindo
não sei quando
nem
tenho como
ontem
tive meus sonhos invadidos
dentes dentes dentes
muitos dentes
água cinza sapos sapos
muita água
vento sangue vento sangue
muito vento
mau auspício
suado e meio zonzo
amanheci
o céu ainda todo noite
me convenci
é o passado
quem educa
meu pescoço e
às vezes dói
às vezes tem que
ouço meus ossos
cantando
e sei que tudo
está onde deve
tinha sido só
um susto
nasci
cabôco
mais uma vez
me estico e encosto
na mãozinha
de minha menina
cinco meses de idade
no documento de nascença
o nome
que também
é o seu
Domingas
você segue vivendo
mesmo não estando
mais aqui
como desenho
boniteza
em sua ausência?
como sigo
os ecos
de sua mágica?
toco
a mãozinha
de minha menina
mais uma vez
beijo
sua cabecinha
de bebê
sua pequena casa
minhas vistas contentes e
beiços esticados
cochicho
em seus ouvidinhos
de bebê
tu tombêin tá viva
qui bom
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*nota de quem traçou esse -destino:
a supressão das letras F, L e R na escrita do poema foi proposital.
