Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Exortação a Baquaqua
Leitura anterior
Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
Baquaqua, Baquaqua!
navegas vis águas,
jogadas aos peixes
as tuas amadas
Baquaqua, Baquaqua!
Teu Benin, tua África,
teu Djougou, tua vida
liquefeita em nada ...
Por que tu não gritas?
Do que é tua malha?
Baquaqua, Baquaqua!
Navegas vis águas,
pescoço na canga,
a zanga espancada,
tua veste exígua,
tanga esfarrapada,
a face, serena,
dignificada
malgrado hematomas
escarlatescaras.
Baquaqua, Baquaqua!
aguentando as penas
só o corpo desbravas
estrategiciente
as unhas tu guardas
a cabeça livre
a carcaça escrava
do monstro, do biltre
que um ferro te crava
que abusa de alvitres
que um látego estala
que te salga o sangue
que tua fé chacoalha
Mas passado um instante
tu te reinstalas
no crescente ou cruz —
será esta a tala
pros ossos quebrados?
será lenitivo
que aplaca e iguala
a dor do que manda
à dor do que manca,
ou a dor do que espanca
à do que na ponta
do chicote implora?
A dor do que chora
sem culpa formada?
Baquaqua, Baquaqua!
Quem em ti mandava
te punha de bruços,
pescoço esmagava,
com o peso das botas
que este mundo lota
e a justiça embota
em cada passada —
cheio de direitos,
o direito escracha!
Baquaqua, Baquaqua!
Onde é que tu achas
forças em tua lida
se a vida te emplastra?
Se as botas te pisam
surdas ao que falas?
Baquaqua, Baquaqua!
Mas te ergues do agouro,
face ensanguentada,
pior, bem pior
que uma cimitarra:
é a faca que reza,
a cruz de fachada,
ódio que te lesa,
poder que te rasga
sem perder o sono,
sem ver que é dono
de nada, de nada,
sem ver que acumula
mais carmas, maus carmas
contra os quais falecem
as armas, as armas.
Baquaqua, Baquaqua!
Nas tuas viagens
quase que naufragas,
mas te perpetuaste
— Ó vingança máxima! —
lançando uma garrafa
no mar do futuro:
as tuas palavras.
Baquaqua, Baquaqua!
Aguentas as penas,
mas a fronte firme!
Torturas canalhas
passaram, e, em verdade,
para a eternidade
ficaram tuas falas!
