Ir para o poema
Edição digital1ª edição · 2026
29 de 50

Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Há Lugares onde o Céu Não Chove Água

não sei mais o que é real.
um mar de tecido branco
ondula
    ondula
        ondula
            ondula
lençóis estendidos ao vento
um campo inteiro de branco (res)pirando
       de suas dobras
     emergem flores coloridas
às bordas do luto
   pequenos corpos
  em caixas
uma multidão enlutada
carrega suas preciosidades
transportando
o próprio coração
para dentro da terra
as lágrimas não cabem
no rosto dos vivos
  assistimos ao real
 como se fosse irreal
crianças
uma escola
o céu limpo
um segundo inteiro
de céu
            │
            │
            │
            │
            │
há lugares
onde o céu
não chove água
            │
            │
            │
            │
            │
um risco rasga o azul
um assobio de metal
depois
o impacto
o mar de tecidos brancos
já não ondula
a f u n d a
algo em nós
foi sendo desligado
os afetos desmobilizados
a indiferença
o hábito
estamos diante
de quê?
que mundo é esse
onde a queda de um míssil

sobre uma escola
se torna

mais uma imagem
que atravessa a tela
antes do próximo café
ainda quente
não sei mais o que é real

Fim de “Há Lugares onde o Céu Não Chove Água”.