Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Primeiro Relatório da Sibila Cassandra
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
E na garganta um incêndio inextinguível.
Huidobro
I - Preâmbulo
Sentada na praia, sob um céu de vidro, tendo atrás de si o murmúrio do mar, Cassandra vê o grande cavalo penetrar as Portas Céias, arrastado e empurrado pelos iludidos guerreiros troianos.
Tróia arde, ardeu, arderá em breve, e ela pode sentir no rosto o calor das chamas que consomem as muralhas e os corpos.
Mas tudo isso só acontecerá daqui a muito tempo.
Agora, Cassandra tem catorze anos de idade, e acaba de receber o presente do deus.
Afastando dos olhos, com as mãos pequeninas, aquelas imagens de sonho, ela se levanta e se dirige ao palácio. Precisa contar à mãe a maravilha que lhe aconteceu.
II - Relatório
Era meio-dia
mãe, e eu passeava
na beira das águas
douradas do rio.
O sol era outro
rio a derramar
seus úmidos raios
por toda a amplidão.
Dourado era o rio
dourado era o céu
dourado o desejo
do meu coração.
Eu estava nua:
roupas, para quê?
Se ali não havia
ninguém pra me ver.
Foi então que ouvi
a voz a cantar:
– Criança tão bela
que cantas, que brincas
nas margens sagradas
do velho Escamandro
teus seios pequenos
e as coxas tão firmes
(tal qual os pilares
que o mundo sustêm)
merecem a língua
ardente de um deus.
Se acaso quiseres
(não ouses negar)
deixar-me provar
o sal dessa pele
te dou de presente
o olho que enxerga
além do presente
pra frente e pra trás.
Assim ele o disse
ó mãe, e eu não pude
dizer-lhe que sim
dizer-lhe que não.
Baixei os meus olhos
virei o meu rosto
e o pobre coitado
pensando que havia
vencido a batalha
concedeu-me o dom.
No mesmo momento
(antes que ocorresse)
o vi furibundo ao
trancar minhas pernas
– pois o que queria
ali não ganhou.
Então, despeitado
chamou-me de nomes
e a sua saliva em
meus lábios cuspiu:
– O dom já te dei
não posso tirar.
Não penses, no entanto
que te há de valer:
maiores que sejam as
verdades que digas
ninguém neste mundo
jamais há de crer.
Tenho medo, mãe
ó mãe, tenho medo
da face e da fala
rascante e cruel
do deus que me deu
o que não pedi
que não era meu.
Ai, medo dos olhos
que meus já não são
mas só da visão
que vai e que vem
sem ter permissão
e sem piedade
me mostra verdades
que estão muito além
daquilo que pode
o meu coração.
Tu passas curvada
no rumo das naves
sem tua coroa
sem teus amavios
sem rei e sem filhos
que mortos estão.
Tu vais arrastada
pelas fortes mãos
dos vis assassinos
do neto querido
que viste cair
das altas muralhas.
Tu choras, tu ralhas
mas é tudo em vão
e é só alarido:
no rumo das naves
(a última prenda
de um reino perdido)
tu vais, sem perdão.
De tudo que vejo
ó mãe, tenho medo.
Tenho muito medo
mamãe, tenho medo.
III - Comentário
– Mas, minha criança – diz Hécuba –, se não se pode compreender uma palavra do que dizes! Falas como os poetas e os loucos. Decerto te expuseste demasiado ao sol do meio-dia. Melhor farias agora se descansasses... Mas que é isso? Tu sangras?
O sangue fervente escorre pelas pernas da menina, inunda a sala do trono, desce as grandes escadarias, toma as ruas da cidade.
A menarca da virgem.
O primeiro sangue de Cassandra.
Tróia arde.
