Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Samburá para Voador
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Nasci de um homem.
Fui subindo a uretra
estreita.
Sendo peixe pequeno
que aproveita as brechas
na sunga
em mar sem ondas.
Nasci nadando,
subindo a uretra
até onde houvesse
água.
Me agarrando à fenda da
glande.
Minhas unhas na carne vermelha.
Minhas mãos de boca de carrapato.
Meus pés sendo pés de criança
que escala portal de apartamento.
Escorregando nas paredes úmidas.
Superando o tubo lubrificado.
E eu saí:
todo minúscula.
Sem membrana que me revestisse,
sem cordão umbilical
que me prendesse.
A pele ressecada,
os cabelos encharcados.
Nua, fiquei parado
na ponta da glande,
buscando superar a altura
que me eletrocutava os pés.
A ofegância do nado.
Olhando para baixo.
Vendo que pular
seria arriscado.
Vendo que não era peixe voador
escapando do samburá.
Abrindo as pernas,
assentando-me com calma
à encosta do prepúcio
escorregadio.
Meus pés,
cada vez mais frios.
Meu tronco,
cada vez mais frio.
Eu tremendo
de frio.
Buscando o calor
e ficando lá,
sentindo aquele calor.
Aquele cheiro doce
de pele lavada
depois guardada
e enxugada vez ou outra.
Quase seca,
mas não exatamente seca.
A glande ali
me aquecendo.
Eu sentada.
A antecipação da queda
quase me fazendo cair
mais rápido.
Eu pondo a cabeça
entre as pernas
como se estivesse
em um avião
colapsado.
A cabeça
entre as pernas
que nunca vem no avião
colapsado
foi a primeira coisa que veio
para mim.
E me fez olhar para
o meio das coxas,
onde não vi nada.
A virilha vazia
selada
sem boca
muda.
Eu parado.
Eu estática.
Esperando a voz
do homem
que me pariu
me batizar.
Mas ele também
não disse nada.
Ficou mudo junto de mim
que também estava muda.
Eu assustado.
Me reconhecendo
cedo demais.
Minha cabeça
entre as pernas.
Me reconhecendo
cedo demais.
Aquela braçada toda,
aquele espaço vazio.
Eu esperando
qualquer coisa
brotar.
