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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Previsão Climática da Violência

A casa exigia dela perfeição sem compaixão,
dessas que mofam mudas atrás da decoração,
não nas fotos sorridentes pregadas na parede,
mas nas vozes apodridas vazando pela rede.
Boas notas eram só pedágio pra existir,
enquanto as mãos pequenas aprendiam cedo o peso
das panelas, da água sanitária e do desprezo.
E o som da chave entrando ao fim da tarde na fechadura
já vinha reorganizando o medo e a mobília escura,
como se a própria casa respirasse em tensão
e escolhesse nela o lugar da explosão.
Diziam: “ela só estuda”, com tranquila hipocrisia,
mas havia pólvora acesa escondida na rotina fria.
A irmã errava — nela caía a correção.
A casa rangia — nela explodia a pressão.
Como prédios antigos acumulando rachadura,
empurrando pro mesmo quarto toda a ferrugem dura,
existem meninas que aprendem piano e canção;
ela aprendeu meteorologia da agressão.
O pai ainda era espaço sem ferrugem e ruína,
um herói que só por existir já parecia medicina.
Ela o amava naquele absoluto infantil,
onde homens vivos parecem proteção civil.
Então a mãe soprou ferrugem naquele afeto inteiro,
nem precisou falar tudo — fungo cresce ligeiro.
Frases incompletas apodrecem mais veloz
quando ficam respirando décadas dentro da voz.
E algo nela começou a se olhar de fora,
como câmera gravando o peito noite afora.
Abraço virou objeto suspeito e sem calor,
carinho adquiriu constrangimento e pudor.
O corpo ganhou culpa sem sequer compreender,
como casas infiltradas, mesmo vazias de viver,
cheirando umidade antiga, ferragem e solidão,
mesmo sem ninguém andando pelos cômodos do chão.
Enquanto outras crianças carregavam aniversário,
joelhos ralados, rua e barulho necessário,
ela crescia numa redoma sem claridade,
onde até a alegria precisava pedir validade.
Não podia dormir fora, brincar até tarde,
nem desperdiçar infância naquela luz covarde
que outras crianças usam sem pedir perdão.
Foi diminuindo a própria presença devagar
pra não produzir problemas no ar.
Então a coluna abriu a primeira cicatriz,
a dor ainda pequena, quase tímida, aprendiz.
Cabia na palavra “incômodo”, pequena tradução,
mas já afiava os dentes escondidos na tensão.
Depois cresceu nervosa, invadiu manhã e osso,
desligando bairros inteiros dentro do corpo moço,
como cidades vazias depois da inundação,
com sirenes afundadas na lama da evacuação.
Vieram hospitais, exames, corredor e medicação,
médicos pronunciando sílabas sem compaixão
sobre um corpo que virava distância lentamente,
como alguém desaparecendo ainda presente.
Em algum ponto a vida deixou de ser futuro
e virou procedimento repetido no escuro:
agulha, maca, espera, claridade artificial,
o tempo hospitalar corroendo o temporal.
Quando retiraram os remédios, a dor veio inteira,
sem tradução química, sem parede ou fronteira.
E começou o trabalho obsceno e desigual
de reaprender o automático mais banal.
Sentar, escrever, comer, sustentar o próprio peso
sem negociar com a queda e o cansaço aceso.
Enquanto outros descobriam viagem, beijo e paixão,
ela descobria centímetros de locomoção.
Barras de apoio pareciam água encontrada
dentro de uma cidade destruída e saqueada.
Mesmo assim, continuou ainda respirando,
com o sofrimento nela mobiliando.
Porque houve um ponto em que a dor saiu da linguagem,
virou ferragem fixa atrás da paisagem,
uma estrutura metálica escondida no invisível,
uma presença silenciosa, pesada e irredutível.
Houve também o instante em que tentou desaparecer,
interromper o incêndio deixando o ar morrer.
Nem isso lhe foi dado. Nem o fim, nem o vazio.
Continuou atravessando o corredor frio.
Vieram cirurgias, perdas, luto e tratamento,
corpos desaparecendo devagar no esquecimento,
e um cansaço tão antigo funcionando sem ruído
como órgão vital batendo dentro do partido.
Poucas pessoas ficaram depois da ventania,
e os copos acumulavam poeira sobre a pia.
Secas humanas espalham ausência pelo chão
com a mesma eficiência da devastação.
Então surgiu a história guardada em oração:
a mãe teria pedido ao invisível salvação
pro marido escapar da morte anunciada,
e a filha entrou depois como moeda negociada.
Não pediram sua morte — acreditavam resistência.
“Forte espiritualmente” foi o nome da sentença.
Desde então ela carrega no fundo do peito
a imagem impossível do próprio corpo desfeito,
como vida colocada num balcão sacrificial,
respirando após a lâmina no ritual.
Nos últimos dias houve tentativa torta de amar,
quase como quem encontra tarde demais o lugar,
onde o afeto enfim aprendesse a direção
quando já não existia tempo pra travessia da mão.
E talvez essa tenha sido a violência derradeira:
depois de tudo, sobreviver naquela maneira
uma parte infantil, silenciosa e sem defesa,
ainda confundindo colo com tristeza.
Porque foi justamente aquela voz materna
quem lhe ensinou cedo a lógica mais interna:
amor e sacrifício podem dividir a mesma oração.
Hoje ela continua entre cicatriz e memória,
atravessando o corpo como quem atravessa escória.
E talvez seja isso o que permaneceu no fundo:
não era o corpo doente — era a infância em andamento profundo.

Fim de “Previsão Climática da Violência”.