Ir para o poema
Edição digital1ª edição · 2026
9 de 50

9º lugar1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Liturgia para um Corpo Submerso

Na terceira dobra da noite
uma ave sem olhos
atravessou meu peito
carregando sal,
mirra
e o nome secreto das marés.
Eu dormia
entre relógios afogados
e santos sem rosto
quando a lua abriu a própria garganta
e derramou leite negro
sobre os telhados da cidade.
As mulheres antigas apareceram descalças.
Traziam velas acesas dentro da boca
e rios costurados nas mãos.
Nenhuma falava.
Mas seus silêncios
tinham o som de florestas queimando devagar.
Então compreendi:
meu corpo
não era um corpo.
Era um corredor de portas vivas
onde deuses cansados
vinham repousar seus símbolos.
Havia cavalos feitos de fumaça
pastando dentro das minhas costelas.
Havia peixes dourados
nadando no teto do quarto.
Havia um sol enterrado
atrás da minha língua.
E cada palavra que eu dizia
abria um deserto novo
dentro do mundo.
Toquei meu próprio rosto
e encontrei musgo,
estrelas mortas
e pequenos sinos azuis
crescendo sobre a pele.
Ao longe,
uma criança vestida de vento
me chamou pelo verdadeiro nome —
aquele que perdi
antes de nascer.
Quando me virei,
o céu inteiro estava submerso.
E Deus,
sentado no fundo do oceano,
costurava pássaros
nas feridas da humanidade.

Fim de “Liturgia para um Corpo Submerso”.