Ir para o poema
Edição digital1ª edição · 2026
35 de 50

Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Bicho Cheirando a Mão

Ainda não tem nome.
Pedra breve
que pesa, pousa e empurra
a boca
presa
entre língua
e dente.
A manhã acontece.
algo desperta, estala, exala
a poeira que pousa,
a rua, ruidosa,
o tempo que passa.
Procuro
por uma palavra
vestir de som o que me fica:
o calor que demora na pele,
a roupa que erra o corpo,
uma memória que morde,
um boleto que vence,
um cansaço antigo.
Nesse gesto
não sei se nomeio,
se me perco, protejo, projeto.
Espero.
Quanto mais procuro,
mais me atraso.
Quanto mais atraso,
mais me torno
procura.
A palavra vem
devagar, desconfiada,
bicho cheirando a mão.
Chega antes de mim.
Me empurra para fora.
Nasce instrumento frágil
Como quem não crê
no feitiço, mas fala.
E, falando,
funciona.
Como num escorregão provisório:
o pé que falha no chão molhado,
o corpo que se corrige no susto,
os braços abrindo para não cair.
Até que o silêncio
com delicadeza
a pedra
já era
pedra.

Fim de “Bicho Cheirando a Mão”.