Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Tratado de Gravidade Paterna
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
Minha filha,
você coube inteira
no intervalo entre dois batimentos
e ali instalou residência.
Antes do seu nome,
entendi seu peso:
a inclinação do meu corpo
quando você dorme no meu ombro
e me desloca o eixo.
Eu fico para trás
enquanto você cresce
em quadros fotográficos
onde sou atraso.
Às vezes você segura meu dedo
com a autoridade de quem
ainda não sabe a palavra “autoridade”.
Nesse gesto microcósmico
um homem adulto
inteiro
pende
porque uma criança decidiu
não cair.
O chão sendo
apenas a primeira página
onde seu corpo escreveu
“tento”
foi guardião do primeiro tombo
que doeu em mim.
Há tardes em que você corre
e o parque não comporta
tanta velocidade.
O sol bate na sua nuca
e eu vejo
(com uma falha interna)
que a vida ascende
enquanto a luz também cai.
Vivo de vigia
enquanto instantes passam
como trens
atropelando travessias.
Você me pergunta por que as coisas acabam.
Eu respondo sem saber como,
minha boca expulsa do peso.
Digo que as coisas
só trocam de forma
como a água que insiste
em continuar água
mesmo quando é nuvem.
Teus passos gastam areias,
e eu, que sempre fui terra firme demais,
aprendi a ondular.
Sem que você soubesse,
te prometi presença,
esse músculo invisível
que se exercita quando tento dormir.
Não menciono
que um dia
eu serei nuvem.
A vida é grave.
À noite, quando você dorme,
o quarto respira em dois tempos.
Seu peito sobe
e o meu aprende a imitar.
Seu peito sobe.
O meu, atrasado, obedece.
Entre nós
alguma coisa no escuro
em mim pendula.
E, já que a vida segue nos atravessando
como o vento atravessa a roupa no varal,
que fique entre nós
algum sal na roupa,
de termos pesado
na terra.
A brevidade
cabe inteira
no espaço entre sua mão aberta
e a minha.
Um dia
elas se soltarão.
Duas quedas
em tempos diferentes.
