Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Norma Vernácula
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A língua não é uma língua,
Da mesma forma
Um português não é o português.
Vejamos um idioma em quatro países, em quatro tempos:
Em Luanda, a palavra mercado é o Mercado 30 — guarda-sóis de arco-íris pousando na terra batida, firmes; Mufete e Rosário, mil cores em um só sabor, angolano; sol reto e limpo, como um abraço, como um riso; ali fica a antessala da felicidade, a espera antes da materna refeição; sons, roupas, frutas, tempo — cozinhado em desejos, em sonhos.
Em Porto, quando se fala em mercado, é o Mercado Bolhão — cheiro de saudade, do mar, de tudo, no pavilhão dos peixes; hortaliças e flores também com saudade, da terra; casas de talhos, ainda em saudade, da vida — feito para olhos fechados, antes do mergulho, na lembrança.
Em Dili, ao imaginar um mercado, o que vem é o Mercado de Tais — tecidos multicores feitos por multimãos; é um país inteiro que tece, nos panos de tais; é nos calos dos dedos do Timor que passeiam os fios, as histórias; um lugar para ser tocado, sentido, mais do que saboreado ou pensado — onde falar português pressupunha coragem, força.
Em Recife, o meu mercado é o Mercado da Madalena — tem poemas em cordas, palavras penduradas à espera de um ouvido; é ilha de sertão, do interior do continente, resistindo ao mar; é cadeia de passarinhos, protestando em seu canto, a dor na sua lírica; pássaros e poetas são o mesmo: música contra o mundo — arquitetado em versos, preso entre páginas, com vontade de voar, mas sem asas.
Vejamos um idioma, em três poetas, em três tempos:
Para Fernando Pessoa, o português é polivocal, muitas vozes na mesma boca; as palavras têm eco, como ditas à distância: em Macau alguém chora e é escutado no Tejo; são metáforas sem imagem, contradição compatível, é campo e cidade, histeria e lamento; marinheiro que navega para dentro, mesmo sem mar, como forma de ser.
Para Agostinho Neto, o português é como katana, feito para cortar, abrir caminho; os versos não pedem liberdade, eles a anunciam, sobem ao palco; ditos para os povos negros do mundo, para todos os povos que choram enquanto lutam; o país inteiro em seis letras: pessoas, paisagens, praças, amores: o seu mais belo poema, Angola.
Para mim, o português é o falado por minha mãe, na infância, quando da morte de um pai: “vai ficar tudo bem”, mesmo não estando; é colo, diminutivo, olho no olho — o retorno a casa depois de meses à deriva; é para ser dito com calor, mesmo no frio, no desespero; é uma língua que não desiste, fina luz na cela escura; imenso repartido; milhões de corações para um só peito.
Vejamos um idioma, em dois usos, em dois tempos:
Adeus é leve se dito em vista de aventura; para ser falado de costas, sem necessidade de culpa; em toda mudança, o primeiro passo dado, antes do ato — a dignidade da bravura; após o poema publicado, a palavra proferida: é ver o filho conquistando o mundo, com um sorriso.
Adeus é pesado quando for o último; a palavra demora na boca, arranha a garganta antes de sair; falado em frente à morte, de amigo jovem, de amor velho; devora todas as frases, o silêncio, tudo gira ao seu redor, em sua terrível gravidade; a linguagem toda em um só termo, dicionário de uma só palavra.
Vejamos um idioma, para todos, em só um tempo:
Nossa língua pode ser muralha, mas, para os poetas, é uma ponte; quando digo poetas, não falo daqueles que escrevem e cantam versos; poetas são os que falam por instinto, necessidade, beleza antes do pensamento; são aqueles que dizem “nascer do sol” como se cada dia fosse um parto; são aqueles que falam “abrir o coração como se este contivesse um zíper prestes a transbordar; os poetas do português são aqueles que falam sem fronteira; o povo é o verdadeiro pulmão da língua; instituições, acordos e padrões não podem explicar, conter nossa heterogênea irmandade — nossa grande pátria, pátria em que todos sabem o que significa saudade.
