Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Caminho das Pedras
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
sobre as pedras portuguesas
pulei onda a onda
me livrando dos monstros marinhos
até chegar a lisboa
para avisar o rei sobre o turco telegrama
que roubou a filha do infante
bonita como a lua
e enraiada como o sol
e o rei dizia
eu vou lá e pego
e me mandava de volta
pelo mesmo caminho
eu vinha colecionando
cicatrizes no calcanhar
e queimaduras no casco da caravela
que submergia dos meus
joelhos para os espaços
entre as pedras azuis
que eram mais quentes
do que as brancas
eu me perguntava quanta
pedra portuguesa azul havia
em toda a extensão
da infinita calçada?
quanta?
demorou noventa dias a manutenção do mar
todas as pedras da avenida dos pescadores
trocadas pelos funcionários da prefeitura
durante esse período pétreo
não dava para pular as ondas
então tive que meter os pés no asfalto
muito mais quente do que as pedras azuis
embaixo da ponte
um eco engraçado
eu gritava
rato
e a ponte
rato
as ondas sonoras ecoando na acústica da grande pedra
rato rato rato
adiante chutava as pedrinhas miúdas
contando quantas vezes
quicavam sobre a superfície
pedra pedra pedra
quando a nova calçada ficou pronta
ajustei a bússola e ergui o mastro
para continuar
a navegação
e percebi que as ondas novas
eram menores do que antes
o pé às vezes nem cabia
todo nelas
ficavam os dedos
nas pedras brancas
queria as antigas ondas de volta
mas só o barco
continuou ali
e está atracado
em frente ao cemitério santa izabel
estou
caminhando
pelo mesmo caminho
descalço
sobre as pedras azuis
são oitenta e seis ondas
da ponte até a última
marola do cais
pode perguntar
ao rei de portugal
que fugiu de napoleão
que está nu entre os capítulos da história
que jamais responderia ao ofício
de um navegante perdido
muito menos salvaria a filha do infante
até porque essa história não tem fim
porque quem vai ao resgate
tem que comer sei lá quantos bois
depois sei lá quantos javalis
e sei lá quantas galinhas
e nada de salvar a filha do infante
a história não pode ter fim
a história é uma onda
batendo sempre nova
nas rochas
que morrem
no cais
