Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Procura do Mundo
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I
Procurar o mundo
não termina nunca.
Dentro e fora
inútil necessidade.
Errantes nesta terra
sempre estrangeira,
chegamos sem cessar.
Quanto mais bagagem,
mais medo.
II
Há muitos mundos no mundo.
Há muitos mundos no mundo
— mero mosaico de misérias,
em que se pode, de repente,
achar a farpa da esperança.
Há muitos mundos,
mas, não, não é por isso
que a procura não tem fim.
Numa curva inesperada,
a mala pronta
— matéria de abstração —
quando se vê
está refeita, inevitável
em novas rotas,
novas fomes.
III
Há muitos mundos no mundo.
Como saber onde estamos?
Como participar
de cada mundo
que cresce dia após dia
para chegar ao próprio fim?
Como desaparecer
em outros nascimentos?
IV
Há muitos mundos no mundo
e nele viaja uma criança
que ainda brinca nas minhas sombras
que tem vontade de morar
em cada cidade do mundo,
se equilibrar em todos os paralelepípedos,
se arrepiar em todas as pontes,
decifrar cada musgo, fungo, inseto,
sentir como o Sol deita ou se esconde
em cada esquina,
conhecer da planta ao pássaro de cada quintal,
o cheiro de todas as casas,
de todas as ruas,
praças, comidas, conversas, convites.
Ela sonha em ter o mapa mundi tatuado na língua,
no ouvido, na saudade.
Tudo isso que — língua ouvido saudade —,
também feito o mundo
não para de crescer.
V
No mundo vive alguém
que não sabe a geografia do próprio bairro,
que se perde no próprio quarteirão,
num elevador de dois andares,
nas paradas e linhas das estações,
no espaço entre o trem e a plataforma,
alguém
que não entra em certas ruas
por causa do tempo
ou do medo.
Há muitos mundos no mundo
e muita gente em cada um.
Não é confiável.
Apesar de nós,
cumprimento o vizinho,
devolvo um riso ou gesto
a um estranho
e vez em quando olho
cheio de futuro
pela janela.
VI
Da minha janela
invento
cada fresta da multidão,
cada festa das idades
e não me privo
dos terrenos baldios,
das casas abandonadas,
do mato crescendo
no cimento rachado da história.
VII
Procuro o mundo
ao passo que
me desconheço.
Uso a lupa do fracasso.
Sou, como todos nós,
um espelho no escuro.
Procuro o mundo
em cada traço.
Sei que há pessoas que pertencem às suas cidades,
às suas pátrias.
Mas, não,
não serei mais um
a diminuir o infinito.
O mundo não pode ser grande
nem pequeno
porque é sem medida
em cada ser.
O fim do mundo é sempre
um meio.
Procuro o mundo,
mas não é por isso
que me asfixio em meu bairro,
que me debato contra as paredes de casa.
Fui sempre muitos.
Nunca eu mesmo.
Fui sempre
muitas testemunhas
dos meus fingimentos.
Mas agora ouço o eco do meu nome
nos gestos e mapas que reinvento.
E soletro, fome a fome,
o alfabeto de outros nascimentos.
Já posso ser meus vários.
VIII
Há muita solidão no mundo.
Não estou só.
Quando acaso olho
pela fechadura da gaveta da mesa do escritório
me vejo
minúsculo
borrão em folha branca,
mancha sem forma que, vista de perto,
se mostra nada mais que uma constelação de riscos
distantes,
em sinapses que ao se multiplicar se apagam
e explodem,
silenciosamente,
longe do suor dos holofotes sobre as páginas.
Mas
― aberta a gaveta, abertas
as sombras na distância ―
escuto dentro um grito semelhante à eternidade,
vejo aquela criança tropeçar no futuro
e despencar entre galáxias
pondo os brinquedos estelares em diálogo
em todas as línguas do mundo.
Ela corre entre povos,
saúda antigos e novos encontros,
e nos convida
a refazer
o tabuleiro das constelações,
raspar a cal de ódio em cada face.
Há muitos mundos no mundo.
Cada rosto que passa na Praça Vermelha,
na Trafalgar Square ou na Plaza Mayor,
na Times Square ou na Praça Xinghai,
na Praça de Tiananmen ou na Praça dos Girassóis,
cada rosto que passa,
cada rosto,
por maior o esforço de se mostrar um igual,
por maior semelhança que se possa apontar,
cada rosto que passa
prova
que o mundo é sem tamanho.
IX
Há muitos mundos
no mundo.
Procuro no escuro
e aceito a derrota:
o caminho joga
com cartas a mais.
