Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
De Bestas e Homens
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
o sol me lê pela a risca do meu cabelo
e mesmo degolado pelo horizonte
o amarelo canta para mim
o poente se assenta em camadas
o leve tremor das cores ao vento
enquanto acumulo vertigem no peito
a noite costurada com a seda do verão
liquens de estrelas no tronco do céu
não sei através de qual silêncio me movo.
mas cavo um buraco na chuva
e vejo as linhas que unem as estrelas
gotas de luar condensadas no rosto
os momentos entre mundo e mundo
a pronúncia errada do nome
vista de longe sou tão velha
e (e isso é um palpite) tenho tanta vergonha
um marinheiro morto em um mar calmo
cantos murmurados entre dentes cerrados
mastigo memória com orvalho
ouvindo a homilia do vento
com a graciosidade que o mar se curva para a lua
com a maciez de aguentar, mas não perdoar
não me peça para dizer algo melhor que isso
mas a alma me pede versos mais profundos
o que vi eu não sabia ver,
a falta faz o coração.
o dedo de um santo na menor igreja
as ruas tão vazias que criam vozes
as várias recusas que nos moldaram
as flores entre uma linguagem e outra
qual é a palavra, o ato, que pensamos não importar?
cercada pelo grotesco e pela coceira de ver
mil escuridões vazias em mim
o que há de errado em talvez?
nomes em todos os lugares
tenho o nada à sós comigo
árida pelo desejo, indigna
e se eu ainda me quiser inteira?
o sol se derrama, errático, entre os galhos
e me encara como um olho cego
ouço o tempo apodrecer
enterro na garganta cantos em que amo
vejo o por dentro de um omen
o que resta das minhas mãos?
nem eu me penso mais
esqueço-me de cor.
a ferida e sua elocução
a alquimia do corpo
catacumbas de tudo que é frio
que o meu sangue sempre manche
que meus olhos ainda enxerguem depois do choro
“humano”, o nome secreto de deus
