Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Arqueologia do Silêncio
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Você parou neste poema.
Deseja continuar do ponto salvo?
Há mulheres
que não morrem,
sedimentam-se.
Camadas de voz
endurecem sob a pele
como cidades soterradas
que ninguém soube escutar.
Escavo-me.
Com as unhas ainda sujas
de todas as versões
que precisei abandonar
para continuar respirando.
Dentro de mim
há um quarto interditado
onde repousa
a menina que aprendeu cedo
que amor também podia doer em silêncio.
Ninguém percebe
quando uma alma começa
a falar baixo demais
para sobreviver.
Chamam de maturidade
o que foi apenas exaustão emocional.
Chamam de fé
o que era tentativa desesperada
de não desaparecer.
Mas o corpo lembra.
O corpo arquiva
cada palavra engolida,
cada gesto interrompido,
cada perdão oferecido
antes do próprio sangue cicatrizar.
Há ossos meus
espalhados em antigos afetos.
Há nomes
que ainda respiram
dentro das minhas ausências.
E ainda assim, algo germina.
Entre ruínas,
uma raiz insiste
em atravessar o concreto
como se soubesse
que sobreviver
é um ato mineral.
Hoje não me reconstruo.
Reivindico meus escombros.
Porque foi no colapso
que aprendi: nem toda queda
é fim, algumas são apenas
o instante exato
em que a terra
finalmente nos aceita
de volta como origem.
