Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026
Eu-Divisa
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Parte I: Gênesis
A montanha íngreme
o rastejo mudo ao cume
o gelo formatando os picos
o ruivo festejo íntimo
o bocejo das nuvens
ascensão rarefeita
sorvo os bicos
no exílio latino
a altitude refaz gravidades
retomo o ar pelos punhos
em servil reverência
músculos contraem seus eixos
sussurros eclodem costelas
o céu em severa beleza
assanha minhas narinas
laivos de euforia
acendem meus poros
devoto os olhos ao branco
joelhos trôpegos
hasteiam a bandeira dos sonhos
refletido no lago impreciso
há um Deus em seu trono
O anseio antes do seio
a pedra roçando a pedra
no atrito tão antigo
quanto os meus desejos
os pés se equilibram
no tronco da palavra
a saliva primitiva
descarna o verbo
o tempo destece as cortinas
o sopro retrocede:
o barro volta à terra
o homem volta ao húmus
o breu encampa o mundo
não há nomes ou signos
apenas a carne
do indizível
O trajeto, meu irmão até o carro,
a sentença esculpida na língua,
e antes que a profira
o pavor se acumula
em minha mandíbula
a lágrima pulsa na carótida
a morte relincha seus pêsames
enquanto seus lábios se movem
solenemente
minhas pernas surdas de espanto
visitam memórias ainda quentes e estáticas
penduradas como lustres em minhas pálpebras
o pai que se vai desencarna a filha
os minutos âncoras devastadas
fincam seu peso no fundo de minhas águas
pairo à beira do susto
feto submerso
a nudez do nada
névoa de futuro
no ventre da espera.
Parte II: Côncava
No sudário a mancha úmida
o rosto esfinge resiste
a menina sorri até as gengivas
ogivas de ternura
explodem uníssonas
gemas profícuas
sombras siamesas
não sei quem antecede
o ovo ou a galinha:
a casca ou a asa:
Em que reflexo assenta
sua imagem? Em que refluxo
ascende sua margem?
Sob as anáguas do tempo
o amálgama:
a outra se desloca vítrea e cínica
pródomos e átomos
anunciam crepúsculos
seus pés em minha espinha
abocanhas os nãos pelo cordão
frágil como cílios de formigas
é a minha ruína que ruminas
empedras o rio que me lavra
no mamilo acidentado da queda
é o meu sangue
o leite que sugas.
Parte III: Convexa
A exógena réplica
gestos autômatos
sucumbem o salto
embutidas as vísceras
a membrana, o enigma:
fictícia duplicata
rudimentar pantomina
estátuas vivas cobertas
de ouro
defraudam passantes
seu rosto-viga
ambíguo
deixa um lastro viscoso
(eu-divisa)
fronteiriça aquiescência
deslizam vértebras e medulas
a estranha simbiose
o esboço, simulacro
seus olhos-oráculo
vislumbram o fogo
incineram planos fósseis
o eco redondo
escolta a laringe
o sismo rasteja
e se firma
às cordas vocais
num pêndulo
solitário:
Qual de nós finge?
Retraio as bordas híbridas
enquanto ruges oceânica
mãos de coser horizontes
fálica bélica cirúrgica
ciranda elipses
em minhas sinapses
mãos de embalar novidades
já as minhas
carcomidas
velam calendários
as suas, ervas daninhas
atiçam o agora
e na coreografia
de espectros
engendro vazios
nessa valsa hipnótica
Ela é
Eu sou
Nós,
Cosmos.
