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Edição digital1ª edição · 2026
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Finalista1º Bula Prêmio de Poesia 2026

Engenho de Orfeu

No princípio a palavra fora o fogo,
único formador de todo o mundo.
Quando não existia qualquer arte,
a palavra era início e fim de tudo.
A palavra se fez com o big bang,
e fez também cometas caudalosos,
tudo o que se desloca sobre o tempo,
e tudo o que também não se apreende.
O andamento das quatros estações
a linha imaginária sobre os mares,
todas as luas vistas do oriente,
e as serpentes que movem os desertos.
Quando a palavra não coube por dentro,
brotando como mina sobre a terra,
o caos organizou-se por pedaços,
os quais nós traduzimos em poemas.
Como retina, máquina e metáfora,
o poema educou pelas imagens.
Entre mundos submersos e elevados,
pôs labirintos, arcos e passagens.
Dos poemas vieram quatro pás
dos moinhos de vento dos sertões.
A ferragem, as rodas dos engenhos
para a cana-de-açúcar e o melaço.
Presentes de poetas para nobres,
os poemas são vestes sobre a pele,
aromas preciosos como néctar,
maravilhas erguidas sobre escombros.
Notas por sobre notas na harmonia,
a música foi posta na palavra,
num trabalho a medida dos heróis,
e sobrenatural como os feitiços.
O poema adentrou pelas narinas
o poema adentrou pelos olhares
pelos ouvidos, pelos mil sentidos
por todos os buracos dos espaços.
Enlouquecido cão é o poema,
em busca da medida apropriada,
visita quarto e sala de jantar
da casa dos estranhos e vizinhos.
Enfurecido rio é o poema,
quando percorre livre o seu caminho,
tira aquilo que pode do lugar,
Capibaribe de setenta e cinco.
Afiados na pedra e no punhal,
os poemas são armas de combate.
São como fortalezas de defesa
protegendo as entradas das cidades.
Verso de vasto império cobiçado,
o poema se viu arrebatado,
tingindo negro a página do livro,
juntado com saliva e costurado.
Encarnando pessoa e poesia,
o poema criou o que podia.
Novo latim fez pacto de irmandade,
em uníssono, ao mesmo tempo em quatro.
Obra de tempo-espaço recriado
muso de encanto lírico e do épico
arte de sete dias de invenção
mais outras sete noites de vigília.
O poema, cinema da palavra,
morada da linguagem unida à alma,
poesia do corpo e manifesto
das formas do futuro, das vanguardas.

Fim de “Engenho de Orfeu”.