Vocês mães são criaturas terríveis

Não sei quanto a vocês, mas eu considero a tortura um dos crimes mais escabrosos e abjetos de que seja capaz um ser humano. Repercutiu muito uma entrevista concedida pelo ex-balconista de livraria e ex-sex-appeal da música brega-sertaneja, Amado Batista, na qual ele afirmou ter merecido, sim, sem dúvidas, as torturas sofridas durante o período de ditadura militar no Brasil.

Valendo-se de invulgar analogia poética, o cantor popular comparou a brutalidade por que passou aos 18 anos a, nada mais, nada menos, que um justo corretivo de mãe, uma prova de amor, se não a ele próprio (suposto jovem desajuizado a serviço dos revolucionários), ao país ameaçado pelos comunistas.

A última entrevista de Manuel Bandeira

Numa tarde de março de 1964, três décadas depois de ter publicado o poema que lhe consagraria: “Vou-me embora pra Pasárgada”, o poeta Manuel Bandeira fala ao jornalista Pedro Bloch, em sua última longa entrevista

Ninguém sabe explicar como aquele homem, castigado, tantos anos, pela doença, não amargou. Disse Mário de Andrade: “Eu fico espantado de como há certos homens no mundo! Tu, por exemplo. Essa sublime bondade inconsciente, bem no íntimo, de quem nem sabe que é bom”. Vou além. Acho que Manuel Bandeira nem tem plena consciência de sua imensa envergadura de gente e poeta.

Serventias da Literatura

Quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura? A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros.

Em primeiro lugar, para se dar uma resposta que convença minimamente, será preciso admitir que há certos fatores que entram na composição das forças do mundo que são, digamos, sutis. Como a força do Papa, por exemplo, que não tem nenhuma divisão de brigada, mas conseguiu interferir em muitas guerras ao longo da História.

Os nove maiores álbuns de rock da história

Para se chegar ao resultado fiz uma compilação de listas publicadas por sites, jornais, revistas e suplementos culturais especializados em música. O objetivo da pesquisa era identificar, baseado nestas listas, quais eram os mais importantes discos de rock de todos os tempos. Participaram do levantamento o canal de música VH1, os jornais “The Guardian” e “The Telegraph”, os sites “NPR Music”, “All­Music”, “Aol Music” e “Amazon”, e as revistas “Slate” e “Rolling Stones”. Eis, em or­dem classificatória, os nove álbuns selecionados.

Os 10 melhores poemas de João Cabral de Melo Neto

Pedimos a 25 convidados — escritores, críticos, professores, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de João Cabral de Melo Neto. Cada participante poderia indicar entre um e dez poemas. Poeta e diplomata, João Cabral de Melo Neto inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil. Guiado pelo raciocínio e avesso a confessionalismos sua obra é caracterizada pelo rigor estético e pelo uso de rimas toantes. Divide com Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira o título de maior poeta brasileiro pós-1940.

Está todo mundo nu

Nossa privacidade foi pro espaço. Está todo mundo nu. Literalmente. Alguns, até, nus com a mão no bolso. A intimidade foi devassada, esgarçada, perpassada pelos olhos implacáveis da Era Glass. Não dá pra esconder mais nada da consciência, da inconsciência, do id, do superego, do fantasma horripilante de Freud. Nem dos peludos instintos bestiais que rosnam imperiosos, bem no fundo da nossa barriga.

Entrevista com o diabo

Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver.
(Guimarães Rosa)

“Deus é foda…”, foi a primeira declaração impressionante que ouvi do coisa ruim, nem bem abrimos a entrevista. Ali, no caso, a tosca adjetivação utilizada pelo entrevistado vinha carregada de ambiguidade, muito embora eu captasse do tinhoso um sentido plenamente negativo, a significar, pois: estorvo, percalço, pedra no sapato (acaso sapatos existissem no universo para ungulados como aquele) ou pedra no caminho (se é que o algum dia o capeta se dignou em ler Drummond).

Postado em Filmes

Filme sobre Renato Russo é esquemático e simplista

Apesar da boa atuação do ator Thiago Mendonça, “Somos Tão Jovens”, sobre a vida do cantor e compositor Renato Russo, criador do Legião Urbana, é esquemático e simplista

Diferentemente de Hollywood, onde abundam cinebiografias épicas como “Lawrence da Arábia” (1962), “Ray”(2004), “Ali” (2001) e “Lincoln” (2012), esse é um gênero em formação no cinema brasileiro. Embora existam alguns exemplares cultuados pela crítica, como “O Homem da Capa Preta” (1986), no qual José Wilker encarna o célebre deputado Tenório Cavalcante, e “Lúcio Flávio — Passageiro da Agonia” (1977), com Reginaldo Faria fazendo o papel título, ainda não temos uma tradição sólida.

40 frases venenosas

Uma seleção de 40 frases célebres de personalidades de díspares perfis, nacionalidades e épocas — venenosas, mal humoradas, engraçadas ou cruéis —, as frases revelam o olhar preciso e ferino de seus autores sobre os temas abordados. A autenticidade de cada frase foi checada para não incorrer nos risco das falsas atribuições em meio a profusão de textos apócrifos e equívocos relativos à autoria.

Os 10 maiores álbuns de jazz da história

Para se chegar ao re­sultado fiz uma compilação de listas publicadas por sites, jornais, revistas e suplementos culturais es­pecializados em música. O objetivo da pesquisa era identificar, baseado nestas listas, quais eram os 10 mais importantes discos de jazz, de artistas diferentes, em todos os tempos. Nos casos de John Coltrane e Miles Davis que aparecem em todas as listas pesquisadas com mais de um álbum listados, priorizei o que teve o maior número de citações.

As 10 fotografias mais famosas da história

Para se chegar ao resultado fiz uma compilação de listas publicadas por sites especializados em fotografia, cultura pop e história. O objetivo de minha pesquisa era identificar quais eram as 10 fotografias mais famosas de todos os tempos. Participaram do levantamento as publicações: Photographium, World’s Famous Photos, Life, Digital History, Listverse, Al Fotto, Tripwire Magazine, Photo Net, Photography Schools Online, The Pulitzer Prizes e World Press Photo.

Da importância científica do Homo Politicus Brasiliensis

Frans De Waal, primatologista holandês radicado nos EUA atualmente, é um cientista e um divulgador da ciência respeitado. Em livros como “Primates and Philosophers. How Morality evolved” (Princeton University Press, 2006) e “The Age of Empathy. Nature’s lessons for a kinder Society” (Random House, 2009) ele se vale de sua vasta experiência com grandes primatas, particularmente chimpanzés, para arriscar uma teoria ética evolucionista, pela qual a empatia exerceria um papel fundamental. Empatia essa observada em chimpanzés, particularmente entre os seus próprios familiares. Empatia nepotista, de acordo com De Waal, seria uma forma de proto-ética.

Você é uma pulga: desplugue-se

Trocadilho besta. Deu coceira? Ou será que em vez de pulga você é um polvo? O povo virou polvo. Outro trocadilho infame. Pegadinha maliciosa da nossa língua pra lá de linguaruda. Faça careta. Eu também estou fazendo. Verdade dói, mas tem que ser dita. Ou então verdade pica, sanguinolentamente.

Como no caso das pulgas, cuja única arma reside na “piqure” como diriam os franceses. As pulgas picam e isso é o fim da picada. Retomemos a definitiva afirmação, presente no título deste texto.

Com uma paixão cega no coldre sou capaz de enfrentar o mundo

Não tenho passado uns bons dias. E é muito provável que esta se saia como uma das crônicas mais entediantes que eu tenha escrito dos últimos tempos. Mesmo assim, eu os conclamo a não desistirem do texto. Afinal, amigo é amigo; filha da puta é filha da puta; senador da república é senador da república.

Acho que estou precisando de um choque de gestão nas minhas engrenagens mentais. Sacudidelas. Uma espécie de faxina interior. Assepsia. Guariba. O nome que prefiram. Ah… eu e essa velha mania de armazenar senões no porão da memória. Porão, que nada: calabouço.

Deus não existe!…

Se Deus existe, Ele passou muito tempo na moita. Até que pudesse ser percebido por alguém. Acompanhe o raciocínio: O universo, como existência física, é estimado em 14,5 bilhões de anos pelo calendário terreno, quando surgiu de um ovo pré-universal, numa explosão espetacular, cujos estilhaços, gases e poeiras deles decorrentes, formam os monumentais corpos celestes. Em um desses estilhaços, dos bem pequenos, é verdade, o Homo sapiens, a nossa espécie primordial, surgiu há cerca de 145 mil anos, ou seja: a nossa existência no universo ocupa o percentual infinitamente miúdo de 0,001% da existência do mundo.

A última entrevista de Guimarães Rosa

Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido

Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?

Vade retro, bondade!

Vamos googlezar? O verbo atualíssimo do pai dos burros digital (O Google, aliás, sempre me remete a onomatopaicos ruídos de goles de água, ou algum tipo de gargarejo faríngeo — já pensou nisso) Bom, não importa. Fato é que durante minuciosa pesquisa, cheguei à definição: “Vade retro Satana” (“Afasta-te, Satanás”) é uma fórmula medieval católica de exorcismo, composta no ano de 1415 e encontrada numa abadia beneditina na Baviera, Alemanha. Palavra da Wikipédia, enciclopédia mutirão-digital desenvolvida por mentes e braços do mundo inteiro. Vade retro! Vocativo bombado, esse.

Coisas que ninguém perguntou a Paul McCartney, mas eu sim

Dentro do camarote, um garçom muito cortês ofereceu-me um Daikiri e um banco para que eu acompanhasse confortavelmente o show de Paul McCartney em Goiânia. “Meu chapa, eu deveria assistir a este evento de joelhos, mas vou ficar em pé mesmo, obrigado”, o sujeito afastou-se sorrindo da piadinha idólatra.

Por mais que o rolo compressor do tempo persista em suas sacanas engrenagens, Paul mantém o carisma, a anemia e o sex appeal. Já, já, justificarei.

O cientista do samba

Gosto de pensar que Paulo Vanzolini está para o samba como Pedro Nava está para a prosa memorialística brasileira. O primeiro era zoólogo; o segundo era médico. Em ambos, há de comum o gosto pela arte como hobby, e a ciência como profissão. São casos raros de cérebros poderosos, capazes de fazer-se respeitar, simultaneamente, tanto no meio acadêmico quanto no artístico.