Crônicas

Contratam-se faxineiras para os gabinetes do ódio

Contratam-se faxineiras para os gabinetes do ódio

A rua estava coalhada de terraplanistas convictos, de cidadãos-do-bem que se negavam a vacinar contra o ódio, que vaticinavam a ascensão da escumalha ao poder. Nunca vi tamanha alegria estampada nas nádegas. Contentava-me com uma melancolia interior, infrutífera, ineficiente, saudosista de liberdade, que me impingia ladeira abaixo.

Algumas pessoas nunca saem da fase anal freudiana

Algumas pessoas nunca saem da fase anal freudiana

Histórias de pronto-socorro dariam ótimos livros de ficção. Ou não. É cada coisa que acontece. É cada caso que se conta. Num primeiro momento, no âmago da dor e do medo, alguns acontecimentos clínicos são dramáticos, gerando sofrimento aos pacientes e considerável pressão psicológica aos médicos e paramédicos assistentes.

Não confio em médicos que nunca examinam

Não confio em médicos que nunca examinam

O tempo passou. Há roupa no varal e doses homeopáticas de devaneio nesse texto em tributo à medicina humanizada. Espero ser bem compreendido. Adveio tecnologia avançada com o uso trivial de caríssimas máquinas-de-tirar-dúvidas nas quais se entra numa extremidade, enquanto o laudo sai noutra. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Eis a vida.

É preciso mais sorriso no rosto

É preciso mais sorriso no rosto

Desde que eu soube da morte de Eddie Van Halen não fiz outra coisa senão lamentar, ler a seu respeito, ouvir o repertório da banda Van Halen e assistir aos vídeos nos quais ele aparecia debulhando a guitarra como se fosse o instrumento mais fácil de se tocar na face da Terra. A morte de artistas que eu admiro costuma me incomodar além do razoável. É como se fossem amigos próximos. Difícil de explicar.

Dance comigo até o fim do amor

Dance comigo até o fim do amor

O tumor na laringe de Anthem tinha deixado o timbre da sua voz parecidíssimo com o de Leonard Cohen. Então, começou a fazer apresentações cover do cantor canadense, cantando canções de amor e ódio que tratavam de problemas populares, num pub mal frequentado do setor portuário.

Sorria, digite kkk

Sorria, digite kkk

Hoje, ficou mais fácil sorrir. Basta escrever (ou melhor, digitar) 3 Ks e estarei sorrindo. Sorrio com a ponta dos dedos na maior facilidade. Se eu quiser sorrir efusivamente, gargalhar mesmo, também é supertranquilo: basta aumentar o número de Ks digitados e pronto: estarei dando aquela famosa gaitada.

Copacabana, meu amor

Copacabana, meu amor

Não se mede o tempo em Copacabana. Sem os arcos atemporais da Lapa, Copa nunca dorme: menos negra do que já fora, tem um acinzentado peculiar, uma brancura falida dos outrora glamurosos no bairro mais idoso da América Latina; a brancura dos turistas com algum dinheiro e sanha por libertinagem sem humildade, cheia de paixão e curiosa pela morte.

Cristofóbicos unidos

Cristofóbicos unidos

Subia a Voluntários da Pátria a contragosto, a meio quilômetro por hora, num esforço sobre-humano, quase canino, para não sofrer um colapso. Uma bunda patriótica que me servia como guia, instigava-me a correr ladeira acima e já tinha dobrado a esquina fazia um século. Era uma bunda alegre, firme e altruísta.

Quando nosso cão morre, morre um pouco de nós

Quando nosso cão morre, morre um pouco de nós

Eu chorava, mas não era um choro qualquer. Era um pranto com suspiros e soluços, de um jeito tão primitivo que tive vergonha de mim mesma; mas ele não se importou. A uma distância de meio metro de mim, ele me observava com seus olhos amendoados e aflitos. Sem me julgar, esperava com a cabeça levemente pendida para o lado.