Crônicas

O universo não conspira contra ninguém

O universo não conspira contra ninguém

Da cintura para cima, andava anestesiado para a vida. Do umbigo para baixo, apenas as ereções matinais, fisiológicas, cada vez mais esporádicas, desperdiçadas em estrondosas rajadas de mijo contra a louça branca do sanitário. Em algum momento, tinha perdido a capacidade de sentir prazer. Fez um esforço memorável, mas, não se lembrou da última vez que chorou. Choros de raiva não contavam.

Gilberto Gil, o Super-Homem da música popular brasileira

Gilberto Gil, o Super-Homem da música popular brasileira

É bom ter amigos. Dinheiro emprestado. Um cargo comissionado no governo. Porres homéricos. Diversão com prostitutas. Alguém para trocar a fralda geriátrica, para esvaziar o saco de bostas, para avisar à enfermeira de plantão que o soro da veia já era ou que o coração parou de bater. No meu caso, fui agraciado com um lindo par de ingressos para o show de Gilberto Gil.

O maldito encontro com Walter Franco

O maldito encontro com Walter Franco

Os tempos são outros. E continuam difíceis. Os meus heróis deixaram de morrer de overdose para morrer de velhice, suaves e tranquilos, feito passarinhos. Foi assim que a família noticiou o apagamento em definitivo do cantor e compositor paulista Walter Franco.

Para você que gosta mais de animais do que de pessoas

Para você que gosta mais de animais do que de pessoas

Dois rapazes fumam na calçada. A onda agora são os cigarros eletrônicos. Chupam a fumaça a partir de um artefato, um pequeno dispositivo que, à distância, parece mais um pen-drive. Se a intenção é alimentar o vício eles bem que podiam fazê-lo com mais classe, tragando cigarros de verdade, sugando o tabaco à moda antiga, com o mesmo charme dos caubóis enfisematosos e dos boêmios que criavam caranguejos nas laringes cancerosas.

Trocando em miúdos, estamos fodidos

Trocando em miúdos, estamos fodidos

Eu assisti à televisão hoje. As porras das árvores ardiam em chamas. Tinha minério valioso no subsolo, de sobra, para encher o cu de meio-mundo. Mas, nem tudo estava perdido. A moça do tempo nunca esteve mais adorável ao prever que, em breve, choveria na minha horta. Pouco importava. Como disse o poeta Maiakóvski, a anatomia tinha ficado louca.

Ode às humildes paroxítonas

Ode às humildes paroxítonas

Paroxítonas são a grande parte das palavras da Língua, força poderosa que define quase tudo o que dizemos e escrevemos. Imenso conjunto, mas pouco unido, plebe rude e talentosa que volta e meia abre mão de seus direitos em prol de oxítonas blasés (essa inodora classe do meio) e áticas proparoxítonas (essas políticas idílicas no Congresso do nosso léxico).

Os meninos se matam

Os meninos se matam

O moço que se matou, dizendo por escrito que era um “desajustado social”, na verdade matou-se porque se deixou convencer de que não existe na vida e no mundo lugar para a dor. Matou-se porque lhe disseram, com aquele vocábulo, e com a filosofia maldita que por trás dele se esconde, que o mundo não concede matrícula aos que choram.