Crônicas

Gente feliz não enche o saco

Gente feliz não enche o saco

Sentei-me, respirando ruidosamente como um animal acuado. Fiquei mirando aquela criatura desagradável, uma mulher madura, vivida, descompensada, uma estranha companhia jazendo no piso do escritório. Ela parecia ridícula. Se pudesse levitar sobre o cenário caótico, é líquido e certo que eu me enxergaria igualmente estrambólico. Tudo parecia teatral demais, surreal demais, um encontro inusitado com péssima sintonia afetiva.

É miserável perder

É miserável perder

Pertenço à deplorável classe dos torcedores saudosistas que ainda acreditam que a melhor defesa é o ataque, e que é melhor perder uma partida fazendo um jogo vistoso do que ganhar mantendo o time na retranca, distribuindo caneladas, espanando a bola para onde o nariz aponta e fazendo gols chorados.

Carta aos órfãos

Carta aos órfãos

Quem destrói a minha vida nunca olhou na minha cara. Quem mata o que eu mais amo me ignora. Dispensa o constrangimento. Sangue derramado de longe não embrulha estômago. A cor, o cheiro, os gritos: coisa dessa gente que sofre tragédia, coisa indelicada. Crime é respingar na mesa onde negociam a impunidade, na mesa onde vendem minha alma sem sequer puxar-me uma cadeira, pois não sei morrer de boca fechada, sem mostrar o indigesto mastigado na garganta.

Quando as palavras doem mais do que um soco

Quando as palavras doem mais do que um soco

Os dias passavam e eu sofria de paixão, calado, bestamente incógnito. O corpo de Valéria apressava-se em ser mulher. Era a garota mais desenvolvida da turma, no que diz respeito aos caracteres sexuais secundários decorrentes da inundação hormonal que dizimava a ingenuidade. Eu me ligara mentalmente a ela, talvez, porque a achasse bonita, delicada e, em especial, porque me aprazia o seu jeito de ser, de falar e de não sacar que eu existia.

Quando os corações viram lixo até as moscas se espantam

Quando os corações viram lixo até as moscas se espantam

O sujeito não vale nada. Ele é uma escória ambulante, um zero à esquerda, ele merece morrer e quase ninguém vai sentir falta quando ele sumir — gritou o mandante, claramente exaltado, pegando fogo nos olhos, fazendo rescender um fedor de ódio que afugentou a garçonete venezuelana, uma ex-professora universitária em Caracas, que limpava a mesa.