Crônicas

Compram-se almas. Favor, tratar com o capeta

Compram-se almas. Favor, tratar com o capeta

Compro almas. Mais pra frente a gente acerta. Pago regiamente com amor passageiro e sucesso estelar. Garanto poder, fortuna, bajulação e reconhecimento público, ainda que o teor qualitativo do interessado seja irreconhecível aos olhos mais apurados. Pouco importa. Quanto pior, melhor. O que conta mesmo, além do dinheiro, essa máquina de fazer felicidade, são a glória e a fama.

Ler livros não dói, não cega e não provoca impotência sexual

Ler livros não dói, não cega e não provoca impotência sexual

Repentinamente, a náusea me atinge. Sinto saudades de Anna Kariênina, a minha amada. A morte de Virgílio vem-me à lembrança. Um sopro de vida. Um incidente em Antares. Morreu o nosso filhinho, ainda criança, sob as rodas das carruagens de fogo. Penso no doutor Fausto, o médico e o monstro que me prescrevera pílulas contra a guerra e paz que maltratavam o meu peito.

Terraplanistas unidos jamais serão vencidos

Terraplanistas unidos jamais serão vencidos

Eu disse tchau, boneca. Ela disse eu não sou boneca e me acertou em cheio com um sorriso que por muito pouco me derrubava da cadeira giratória. Homens que complicam tudo quase sempre são surpreendidos por gestos simples, vertiginosos, de girar a cabeça. Eu expliquei que ela era tão bonitinha que até se parecia com uma boneca, era isso o que eu queria dizer.

25 de novembro: Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher

25 de novembro: Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher

No dia 25 de novembro de 1960, as irmãs Pátria, Minerva e Maria Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, foram brutalmente assassinadas pelo ditador Rafael Leônidas Trujillo, da República Dominicana. As três combatiam fortemente aquela ditadura e pagaram com a própria vida. Seus corpos foram encontrados no fundo de um precipício, estrangulados, com os ossos quebrados. As mortes repercutiram, causando grande comoção no país. Pouco tempo depois, o ditador foi assassinado.

A insuportável presença de sua ausência

A insuportável presença de sua ausência

Tento me regozijar com o fato de que você já esteve aqui, mas isso só traz cólera e veneno. Antes não tivesse estado. Antes jamais tivesse me afundado nessa mescla de seda, e perfume, e faca, e fogo. Antes eu tivesse saído de perto, porque descobri a aniquiladora imortalidade em você. A imoralidade da imortalidade: talvez seja um bom livro.

Você pensa que estou louco, mas, estou só me curando

Você pensa que estou louco, mas, estou só me curando

Há uma ira aqui por dentro que passa longe de uma suposta sanha por violência. Melhor seria chamá-la de indignação. Saiba que não visto mais a camisa das causas que não me dizem respeito. Não se aflija. Nunca soquei um homem. Talvez, isso explique a formidável insegurança que comanda os meus neurônios.

O universo não conspira contra ninguém

O universo não conspira contra ninguém

Da cintura para cima, andava anestesiado para a vida. Do umbigo para baixo, apenas as ereções matinais, fisiológicas, cada vez mais esporádicas, desperdiçadas em estrondosas rajadas de mijo contra a louça branca do sanitário. Em algum momento, tinha perdido a capacidade de sentir prazer. Fez um esforço memorável, mas, não se lembrou da última vez que chorou. Choros de raiva não contavam.

Gilberto Gil, o Super-Homem da música popular brasileira

Gilberto Gil, o Super-Homem da música popular brasileira

É bom ter amigos. Dinheiro emprestado. Um cargo comissionado no governo. Porres homéricos. Diversão com prostitutas. Alguém para trocar a fralda geriátrica, para esvaziar o saco de bostas, para avisar à enfermeira de plantão que o soro da veia já era ou que o coração parou de bater. No meu caso, fui agraciado com um lindo par de ingressos para o show de Gilberto Gil.