Crônicas

Para você que gosta mais de animais do que de pessoas

Para você que gosta mais de animais do que de pessoas

Dois rapazes fumam na calçada. A onda agora são os cigarros eletrônicos. Chupam a fumaça a partir de um artefato, um pequeno dispositivo que, à distância, parece mais um pen-drive. Se a intenção é alimentar o vício eles bem que podiam fazê-lo com mais classe, tragando cigarros de verdade, sugando o tabaco à moda antiga, com o mesmo charme dos caubóis enfisematosos e dos boêmios que criavam caranguejos nas laringes cancerosas.

Trocando em miúdos, estamos fodidos

Trocando em miúdos, estamos fodidos

Eu assisti à televisão hoje. As porras das árvores ardiam em chamas. Tinha minério valioso no subsolo, de sobra, para encher o cu de meio-mundo. Mas, nem tudo estava perdido. A moça do tempo nunca esteve mais adorável ao prever que, em breve, choveria na minha horta. Pouco importava. Como disse o poeta Maiakóvski, a anatomia tinha ficado louca.

Ode às humildes paroxítonas

Ode às humildes paroxítonas

Paroxítonas são a grande parte das palavras da Língua, força poderosa que define quase tudo o que dizemos e escrevemos. Imenso conjunto, mas pouco unido, plebe rude e talentosa que volta e meia abre mão de seus direitos em prol de oxítonas blasés (essa inodora classe do meio) e áticas proparoxítonas (essas políticas idílicas no Congresso do nosso léxico).

Os meninos se matam

Os meninos se matam

O moço que se matou, dizendo por escrito que era um “desajustado social”, na verdade matou-se porque se deixou convencer de que não existe na vida e no mundo lugar para a dor. Matou-se porque lhe disseram, com aquele vocábulo, e com a filosofia maldita que por trás dele se esconde, que o mundo não concede matrícula aos que choram.