Crônicas

Tenho medo

Tenho medo

A Cici Pinheiro ganhou da Secretaria Municipal de Cultura um teatrinho de 80 lugares com seu nome — coitada, era o que mais temia quando viva. É o que eu mais temo hoje: que algum idiota entre as centenas que falam mal de mim, invente de colocar meu nome numa dessas salas lúgubres da área cultural. Isso me causa asco e pânico ao mesmo tempo. Sei que corro este risco porque se hoje me hostilizam e dizem que sou um cara de temperamento difícil entre outras agressõezinhas baratas imagino que depois que eu morrer vão descobrir que eu era um cara maravilhoso que fez muito pela cultura.

O evangelho segundo a primeira garota que está sentada ali na fila

O evangelho segundo a primeira garota que está sentada ali na fila

A semana é santa, ninguém é santo e quem anda à flor da pele é o danado-do-capeta. Recos do exército brasileiro fuzilaram com 80 tiros um brasileiro-de-cor que trafegava com a família pela Rua da Amargura, no Rio, um trajeto que ele conhecia de cor e salteado. O capô ficou todo perfurado. Abilolados, os caras da polícia técnico-científica xingavam a todo instante sempre que perdiam a conta dos buracos na lataria.

Não saque a arma, benzinho. Eu te amo

Não saque a arma, benzinho. Eu te amo

Espera um pouco aí. Eu te amo. Esqueça tudo o que eu te disse. Você tem razão. Aonde é que eu estou com a cabeça? Eu te amo muito, muito, muito. Sempre te amei. Você é o grande amor da minha vida. Por favor, não atire. — Tarde demais pra chorar, gracinha. — Não faça isso comigo. Eu peço perdão. Para. — Feche os olhos, faça um pedido e conte até três.

Como vencer na vida com um braço só e os pés nas costas

Como vencer na vida com um braço só e os pés nas costas

Na mosca. Foi numa tarde lenta e chuvosa que ele morreu devagarinho, segurando pela mão a sua Rosinha, apagando, desligando, desacelerando, esfriando sem desespero e panaceia o corpo judiado pelas agruras do tempo, como se fosse ele próprio uma fumegante porção de doce de leite mineiro saído diretamente da panela de ferro.

O primeiro tiro a gente nunca esquece

O primeiro tiro a gente nunca esquece

Assim vivemos. Sobrevivemos nos dias bicudos de um mundo carniça. Gente sofrendo perrengues em longas filas de espera. A grana curta. Um maldito oficial de justiça que está apenas cumprindo o seu papel e nos bate à porta. Homens que batem em mulheres. A saudade de pais que já não podem ser abraçados.