Sobre os patetas e sua arte de caminhar para trás

Sobre os patetas e sua arte de caminhar para trás

Isso, criatura. Fure mesmo essa fila. Passe em colossal descaramento à frente de todos que aqui esperávamos a vez honestamente. Muito bem! Uma salva de palmas para o cidadão ali, tão certo de sua soberania sobre todos os outros. Bravo! E que bela buzina a sua, cavalheiro que afunda com generosidade a mão no volante e os pés no acelerador, alardeando a superioridade de sua máquina entre os outros carros tão lentos e sua mania de obedecer os limites de velocidade e outras regras da convivência civilizada.

O amor é a arte de se agarrar na vida

O amor é a arte de se agarrar na vida

Você pode fazer o que quiser com isso. Guarde, jogue, passe adiante, sorria, chore, avise a polícia, reflita, esqueça. Não importa. É urgente dizer que eu tenho amor por você. Tenho, sim. Não vai aqui nenhum pedido de reciprocidade, namoro, casamento. Nada disso. É só a minha necessidade teimosa de dividir o que eu sinto. Confesso. Eu até ensaiei no espelho para lhe fazer essa declaração com um certo jeito, mas resolvi ir direto. Sem rodeios e astúcias. Quem tem amor não perde tempo com bobagem. Eu amo e pronto. Amo! Tenho uma vontade grandiosa de trabalhar e construir e ter uma vida boa nesse mundo por onde você anda.

O fazedor de amanhecer anoiteceu

O fazedor de amanhecer anoiteceu

Pensava pequenino, esse grande menino. Gostava de revirar pontuações nas poesias e na cabeça de pensamentos ondulantes. Engasgava na política dos pontos e vírgulas: sobrevoava os lentos e dúbios acasos das reticências infinitas. Duvidava de tudo, até das interrogações. Pois questionava o que já nascera pronto, rígido e sem jeito de mudar. Certas horas se interjeitava, segurando uma interjeição bem alta, quando um bambuzal resolvia assoviar pra ele. Namoros de recantos livres ao ar livre, que aconteciam mesmo sem vento nem abanos de alguma espécie. Sussurros já davam conta, assim semeados pelo caminho dos sonhos.

E se toda guerra fosse de travesseiros? E o choro fosse só de alegria?

E se toda guerra fosse de travesseiros? E o choro fosse só de alegria?

Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão… Porque eram feitas de milhões de marshmallows! E quando chovia, elas despejavam confetes de chocolate colorido, que iam tingindo casas, carros, avenidas inteiras e quem mais passasse por ali, sem pressa, naquele dilúvio açucarado. De boca aberta é mais gostoso ficar, como debaixo de um balão cheio de doces, à espera daquele que vai furar a bexiga e regar todos os pequenos com guloseimas! E que sejam pequenos, grandes, vovô e vovó, tios e primos, cachorro, gato, papagaio. Todo mundo junto numa festa só, dentro de um balão mágico, ou numa nave espacial!

Um passarinho novo no céu das pequenas coisas

Um passarinho novo no céu das pequenas coisas

E lá estavam todos eles. As formigas e os sapos, as cobras e os grilos, os ciscos e os pequenos universos que pulsam dentro das gotas d´água. Todas as criaturas pequenas que vivem debaixo das pedras e as borboletas e os pássaros, todos os pássaros trabalhando acima das árvores e brincando de andar no chão. As rãs e os rios, as folhas pesadas de orvalho caindo dos galhos. Ficaram todos ali, à espera: um anjo simples, sem tempo nem jeito anunciara a chegada de passarinho novo ao céu das pequenas coisas.

É hora de tirar os sentimentos das prateleiras

É hora de tirar os sentimentos das prateleiras

Imagine-se em um supermercado absolutamente vazio, porém com as prateleiras abarrotadas de produtos de diversas categorias. Nesta cena, apenas você desfila pelos corredores, deixando no ar a reverberação dos seus sapatos de couro. Aquele ruído, dentre tantos outros, que gostamos de ouvir num filme, enquanto devoramos pipocas no cinema. Já pensou nisso? Exercite suas fantasias então. Pense agora num filme sem barulhos, trilhas sonoras e outros fascinantes malabarismos das mixagens de áudio. Você estará assistindo a uma história agonizante, quase morta, que não nos toca, nem emociona de modo algum.