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CARLOS WILLIAN LEITE
EM 15/05/2012 ÀS 07:58 PM
Os mandamentos do escritor, segundo Machado de Assis, Proust, Flaubert, Henry Miller e Jorge Luis Borges
Dando sequência à série de conselhos literários (ou mandamentos literários), publico nesta edição os ensinamentos de outros cinco escritores seminais: Machado de Assis, Marcel Proust, Gustave Flaubert, Henry Miller e Jorge Luis Borges. A compilação reúne excertos de textos publicados nos livros “Pensamentos e Reflexões de Machado de Assis”, “Contra Sainte-Beuve: Notas Sobre Crítica e Literatura”, de Marcel Proust, “Cartas Exemplares”, de Gustave Flaubert, “Henry Miller on Writing”. Os conselhos de Jorge Luis Borges foram publicados numa edição especial da revista L’Herne. A primeira parte dos mandamentos literários pode ser visto aqui.
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MENALTON BRAFF
EM 14/05/2012 ÀS 09:52 PM
Muitas vezes tenho encontrado a qualificação de fulano ou beltrano como utópico. E isso de maneira pejorativa. Utópico como defeito, adjetivo que condena o pensamento de uma pessoa. Isso acaba mexendo com essa mania de procurar o sentido exato das palavras, mania que teima em não me abandonar. A maioria das pessoas usa as palavras em acepções tão disparatadas que provocam ambiguidades prejudiciais ao verdadeiro sentido pretendido. São famosos os casos de duplo sentido que levaram a algum tipo de desastre.
Outro dia, por exemplo, ouvi um caminhoneiro atacar um advogado, com quem estava irritado, chamando-o de ignorante. Pelo comportamento geral (e Deus me livre de menosprezar o caminhoneiro como ser humano), o vituperador não teria mais do que três ou quatro anos de escola. Ora, ignorante, segundo o Aurélio, é a pessoa que não tem instrução, que não sabe nada ou sabe pouco. E a pessoa que xingou tanto não sabia o que falava que não sabia o significado da palavra. Só pelo contexto era possível entender que ele não estava querendo significar a falta de conhecimento do advogado. Mesmo assim, parecia muito contente com o que havia dito. Tenho consciência de que a língua não está lá dentro do dicionário, engessada e pura. Ela está na boca do povo, que a usa e transforma. Em gramática histórica não se aprende que são as crianças e os adultos incultos os que, por ignorância, transformam a língua? Noctem não se transformou em noite nos escritos de eruditos. Isso aconteceu na boca dos falantes de menor cultura.
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J. C. GUIMARÃES
EM 13/05/2012 ÀS 07:11 PM
Pablo Neruda foi um poeta stalinista, o que para muitos equivale a acusação. Não é o único caso de grande poeta engajado: Bertolt Brecht é mais conhecido como dramaturgo, mas, ao lado de Neruda, escreveu alguns dos melhores poemas ditos engajados do século XX. Com “melhor” não se quer dizer melhor ideologicamente e pior sob critérios estéticos. São versos de estilo e de poeta genuíno. Segundo os críticos de todos os meridianos, entre os principais defeitos da arte engajada está a obsolescência: por filiação com realidades políticas efêmeras, ela necessariamente se torna datada, ao passo que as obras significativas são aquelas que resistem ao confronto inevitável com a temporalidade. Só resistem as que exprimem um grau satisfatório de liberdade de pensamento, que ninguém ousaria dizer que se trata de propaganda de algum projeto político, como perceptivelmente fazem os dois poetas mencionados: a poesia deles tem, deliberadamente, conteúdo ideológico comunista.
Outro defeito — consequente do primeiro — é que não teriam alcance universal porque filiam-se a realidades concretas, não a situações abstratas. São particulares, não universais. Por fim, implicam em juízos de valor por parte do artista. Neruda, por exemplo, exalta ou detrai uma série de personalidades históricas — tece um rosário delas na sua obra —, e é provável que nem todos concordem com ele. Sua poesia estaria manchada de parcialidade e tendenciosismo político. Simples assim? Há quem diga que o maior de todos os poetas, Shakespeare, desconhece essas limitações, embora sua obra teatral seja a mais política de todas, da literatura universal: ninguém, como Shakespeare, colocou tantas cortes e príncipes no palco, como se a atmosfera do poder lhe interessasse mais profundamente do que as outras.
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CARLOS WILLIAN LEITE
EM 13/05/2012 ÀS 06:18 PM
Entrevista de Nelson Rodrigues, concedida em outubro de 1980, ao jornalista Tom Murphy, do jornal “Latin American Daily Post”. O dramaturgo morreria dois meses depois

Tom Murphy
Fui recebido por um homem pálido, até mais alto do que eu imaginava, de calça azul mal ajustada pelos largos e famosos suspensórios; um homem lento no andar e na fala. Lento de dar pena. Anos depois conheci Alfredo Machado, dono e cabeça da Editora Record, a quem relatei a experiência daquele dia: “Entrevistei o Nelson Rodrigues dois meses antes da morte dele; ele já estava doente, muito mal mesmo”. O grande mentor de tantos escritores brasileiros riu: “Nelson estava muito mal sempre”. Naquele ensolarado outubro de 1980, tive o privilégio de conversar durante uma hora e pouco — sentado, como tantos de seus personagens, diante da simples mesa de cozinha — com Nelson Rodrigues. O cenário era bem Nelson: um apartamento escuro e assombroso na beira da alegre praia carioca do Leme, um cheiro leve, não do mar, mas de desinfetante. Na época eu trabalhava para o “Latin American Daily Post”, jornal de língua inglesa, que publicou a entrevista dias depois. Foi só em dezembro que eu soube da real dimensão da doença de Nelson, quando ele deu entrada num hospital. No mesmo mês, dia 21, ele morreu, aos 68 anos.
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EBERTH VÊNCIO
EM 11/05/2012 ÀS 04:07 PM
Quando se tem de cara a morte, o ser humano é capaz de comportamentos os mais extremos, como esmagar a garganta de um agressor potencial, rir em sinal de desespero, desfalecer, ou tentar parar as balas com as próprias mãos.
Acostumados ao serviço digno e sujo de verificar carniças humanas, os peritos criminais bem sabem como são corriqueiras as mãos destrocadas por projéteis nas vítimas de execução, à queima roupa, por arma de fogo. Quanta miséria... É muita ingenuidade da vítima crer na compaixão extemporânea de um facínora ou na eficácia de um escudo tão vulnerável quanto as próprias mãos, feitas de pele e ossículos.
Dizer o que se oferece dizível, repetir apenas o repetível, propalar comentários insensatos parece ser uma das normas àquelas pessoas tomadas pelo trauma psíquico e pela profunda crise existencial. No jornal que leio há uma entrevista emocionada de um detetive que escapara por pouco de morrer na queda de um helicóptero. O acidente, contudo, ceifou a vida de sete dos seus desafortunados companheiros de trabalho.
“Deus me tirou daquela aeronave na noite de ontem”, ele comemorou com os repórteres, ao justificar que não embarcara com os demais por conta de “incidentes de última hora”, alguma coisa do tipo “terminar minha declaração de imposto de renda” ou “deixar o carro da esposa na revisão na manhã seguinte“. Baseado nesta assertiva de quem acaba de escapulir de um mergulho na imensidão do nada, deduz-se que o Mentor do Universo selecionara, colocara outras tantas pessoas desavisadas no interior daquela máquina mortífera, por puro capricho, por simples merecimento das vítimas escolhidas a dedo, ou por meio de um planejamento morticida-ressuscitatório absolutamente incompreensível à mente humana, para não dizer inaceitável. Ora, declarações como aquelas são só coisas impensadas que dizemos a esmo, como “eu te amarei para sempre, até que a morte nos separe”, por exemplo.
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ARNALDO BASTOS SANTOS NETO
EM 10/05/2012 ÀS 11:45 PM
Em “Missa Negra”, o filósofo inglês John Gray ataca os fundamentos filosóficos e culturais das grandes correntes políticas da modernidade. Para o pensador, o conflito é uma característica universal da vida social
O valor de um intelectual deveria ser medido pela quantidade de gente a quem consegue desagradar. Neste item, ninguém melhor, nos dias que correm, que o filósofo inglês John Gray. Com uma argumentação coerente e límpida, Gray ataca, em “Missa Negra — Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias”, (Record, 352 páginas, tradutor Clóvis Marques), os fundamentos filosóficos e culturais das grandes correntes políticas da modernidade, dedicando um número equitativo de páginas para espinafrar jacobinos, marxistas, nazistas, liberais, integralistas islâmicos, trabalhistas ingleses e neoconservadores norte-americanos. Pouca gente escapa das agulhadas de Gray, preocupado em demonstrar que o regime teocrático iraniano fundado pelo Aiatolá Khomeini, os totalitarismos do século XX e as políticas agressivas e imperialistas de George W. Bush, nada mais são que manifestações de uma leitura apocalíptica da história, cuja teleologia foi descoberta e explicitada sob a forma de doutrinas políticas preocupadas em alterar a própria natureza humana. Na origem de tudo encontram-se mitos fundadores do próprio Ocidente cristão, comunicados também a outras culturas pela difusão do Iluminismo.
Vistos pelo pano de fundo de tais mitologias apocalípticas, os modernos movimentos revolucionários constituem uma continuidade das religiões por outros meios, o que Max Weber denominou de religião laicizada. Para demonstrar tal proposição, Gray remonta às visões milenaristas que periodicamente manifestam-se na história, dos tempos bíblicos aos atuais, pregando alguma variante escatológica de fim do mundo (ou da própria história), com o advento de uma era de ouro marcada pela prosperidade e pelo progresso infinito. Tais crenças messiânicas, que estão na base do cristianismo, foram mitigadas por pensadores como Santo Agostinho (354-430 d.C.) que duvidou da capacidade humana de eliminar o mal do mundo. Baseando-se numa antropologia negativa, que acreditava que os seres humanos são irremediavelmente imperfeitos, Agostinho reforçou nesta tradição do cristianismo um forte conteúdo realista, propondo que o fim dos tempos fosse percebido em termos puramente espirituais. Com base em tais premissas, argumenta Gray, esta doutrina “conferiu ao cristianismo uma disposição antiutópica que ele nunca perdeu completamente, sendo os cristãos poupados da desilusão que se abate sobre todo aquele que espera mudanças muito profundas nas questões humanas”.
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CARLOS WILLIAN LEITE
EM 09/05/2012 ÀS 09:47 PM
Publicado no livro “Dublinenses”, usando a técnica conhecida como fluxo de consciência, o conto “Eveline” é considerado uma das obras-primas de James Joyce

James Joyce
Ela sentou-se à janela para ver a noite invadir a avenida. Encostou a cabeça na cortina e o odor de cretone empoeirado encheu-lhe as narinas. Sentia-se cansada.
Poucas pessoas por ali passavam. O sujeito que morava no fim da rua passou a caminho de casa; ela ouviu seus passos estalando na calçada de concreto e em seguida rangendo sobre o caminho coberto com cascalho em frente às casas vermelhas. Tempos atrás havia ali um terreno baldio onde eles brincavam toda noite com os filhos dos vizinhos. Mais tarde um indivíduo de Belfast comprara o terreno e construíra casas — mas não eram casas pequenas e escuras como aquelas em que eles moravam; eram casas vistosas de tijolo e com telhados luzidios. As crianças que moravam na avenida costumavam reunir-se para brincar naquele terreno — crianças das famílias Devine, Water, Dunns, o pequeno Keogh, que era manco, ela e seus irmãos e irmãs. Ernest, no entanto, nunca brincava: já estava crescido. O pai dela muitas vezes enxotava-os do terreno com sua bengala de madeira preta; mas geralmente o pequeno Keogh montava guarda e dava o alarme quando avistava o homem se aproximando. Apesar de tudo consideravam-se bastante felizes naquela época. Seu pai ainda não estava tão mal e, além disso, a mãe ainda estava viva. Isso tudo acontecera há muito tempo; ela, seus irmãos e irmãs tinham crescido; a mãe estava morta. Tizzie Dunn também morrera e a família Water havia retornado à Inglaterra. Tudo se modifica. Agora era a vez dela ir embora, como os outros, ia sair de casa.
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CARLOS WILLIAN LEITE
EM 09/05/2012 ÀS 09:30 PM

Liderado pelas Editoras da Fio cruz (Fundação Oswaldo Cruz), UFBA (Universidade Federal da Bahia), Unesp (Universidade Estadual Paulista), e Fapesp (Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo) o projeto “SciELO Livros”, lançado no mês de março, disponibilizou aproximadamente 300 livros, científicos e técnicos, para download. O projeto visa à publicação on-line de coleções de livros de caráter científico, editados, prioritariamente, por instituições acadêmicas. A previsão para 2012 é que o acervo ultrapasse 500 títulos. Os livros, que estão disponíveis nos formatos ePUB e PDF, são formatados de acordo com padrões internacionais e podem ser lidos no próprio site ou baixados integralmente sem nenhum custo.
Para integrar o projeto SciELO Livros, editoras e obras são selecionadas de acordo com padrões de controle de qualidade aplicados por um comitê científico. “Uma porcentagem significativa de citações que os periódicos SciELO fazem, principalmente na área de humanas, está em livros. E como um dos objetivos da coleção SciELO é interligar as citações entre periódicos, a ideia é também fazer isso com livros”, disse Abel Packer, membro da coordenação do programa SciELO, à Agência Fapesp “A ideia é contribuir para desenvolver infraestrutura e capacidade nacional na produção de livros em formato digital e on-line”, acrescenta.
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MENALTON BRAFF
EM 07/05/2012 ÀS 09:50 PM
Que me perdoem os leitores se exulto, quase sozinho, com a chegada do frio. Meu amigo Adamastor, que veio do Cabo da Boa Esperança, no sul da África, fica escandalizado com minhas preferências. É que o Sol, este astro rei (caramba! quando é que vamos deixar de ser monarquistas?) torna-se menos agressivo, seus raios nos acariciam em lugar de arranhar-nos. As tardes, menores e mais encolhidas, parecem convidar para conversas menos estridentes, para aquele tipo de prosa em que não se tem pressa de chegar ao fim. Duas cadeiras na varanda, um bom vinho em taças pequenas, e a conversa esticada apenas pelo gosto da troca.
O clima frio exige recolhimento e conduz à reflexão. As longas noites são invadidas pelo estudo, pela leitura, porque o silêncio é companheiro do frio assim como o barulho o é do calor. O mundo exterior mais reduzido estimula o exercício da imaginação. Portas e janelas fechas forçam-nos o olhar para o interior.
E não nos esqueçamos da elegância. Tenho visto, mesmo nos dias mais frios, muita gente com as pernas nuas despejadas para fora dessas bermudas coloridamente ridículas que se usam hoje em dia em qualquer estação, em todos os lugares. As pessoas reclamam do frio, se queixam, mas não abandonam o padrão da roupa sumária, do corpo exposto como se o sol substituísse nossas proteções. O Oswald de Andrade queria que o índio desvestisse o português, estão lembrados? Mas o Oswald de Andrade era primitivista, por isso queria ver-nos sem roupa, esse traço de nossa herança europeia. Claro que sua metáfora referia-se à cultura, entretanto serve muito bem para outro sentido, que são os dias de calor. Elegância, meu caro, para os dias de frio, é o sobretudo, o cachecol, a echarpe de seda por dentro da camisa. O sapato em lugar do chinelinho de dedo.
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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 06/05/2012 ÀS 01:00 PM

As editoras brasileiras são criativas ao traduzir títulos e ao inventar subtítulos que não existem nas edições originais. A Record publicou este ano o esplêndido “A Tempestade da Guerra — Uma Nova História da Segunda Guerra Mundial” (811 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), do britânico Andrew Roberts. O título em inglês, “The Storm of War”, de fato autoriza a versão patropi. Mas cadê, na língua do historiador, o subtítulo? Não há, é claro. Trata-se de uma invenção da editora para atrair a atenção dos leitores. De qualquer modo, apesar da enganação, o livro contém análises surpreendentes, ainda que não se possa caracterizá-las de “uma nova história”. O leitor não especialista ganhará muito se ler, antes do exaustivo trabalho de Roberts, “Europa na Guerra — 1939-1945” (Record, 602 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), do historiador britânico Norman Davies. Há, neste trabalho, um balanço crítico competente da bibliografia histórica, da literatura e do cinema sobre a Segunda Guerra Mundial. O tradutor Brízida, sempre competente, comete um erro básico, criticado por Davies a respeito de alguns autores: chama os “soviéticos” de “russos”. Ora, na Segunda Guerra Mundial não lutaram apenas russos, os nascidos na Rússia, e sim integrantes de todas as repúblicas soviéticas. Ucranianos, bielorrussos, georgianos, lituanos, letãos, estonianos, entre outros povos, lutaram bravamente e milhões pereceram no campo de batalha. Eles nunca se aceitaram como “russos” ou “soviéticos”, mesmo sob o tacão de Stálin. Com a queda do comunismo, há a tendência de transformar em “russos” todos os ex-integrantes da União Soviética. Como se sabe, os russos são detestados pela maioria dos outros povos que foram subjugados pelos bolcheviques de Lênin a Gorbachev.
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