Saiu do cinema pra comprar pipoca e nunca mais voltou
Confesso que não vou muito ao cinema. E não o faço por vários motivos, dentre os quais, o frio que eu sinto dentro das salas de projeção (meu corpo magricelo não suporta o ar congelante) e a pipoca cara à beça (por acaso, utilizam milho transgênico importado dos esteites ou manteiga de leite de cabras montesas dos Alpes suíços?).
A alta tecnologia provoca em mim outro entrave gravíssimo: os filmesem três-dê. Bastacolocar os óculos na cara para começar a vertigem, mãos frias e a sudorese. São reações físico-emocionais de um careta, sem dúvida. Cruéis, meus filhos riem de mim.
Há outros transtornos pouco relevantes que também me afugentam, como o medo de tropeçar no escuro e me estatelar no chão carpetado. Prefiro não arriscar, então sofro com a bexiga cheia. Ser obrigado a comentar o filme através de cochichos ao pé do ouvido, para não incomodar as outras pessoas, é outro grave desafio. Na sala de casa a verbalização é livre. Além do mais, quem fica com o controle remoto nas mãos sou eu. Porém, verdadeiramente, o que mais me repele dos cinemas é o risco de cair em ciladas.com, como aquela do Bruno Mazzeo em 2011. Em quarenta e seis anos de vida, somente duas ocasiões eu presenciei a saída de pessoas de uma sala de cinema, antes que o filme chegasse ao fim. Na primeira vez, fui eu próprio o protagonista, juntamente com um colega da escola. Apesar de moleques, penetramos (Sem duplo sentido, por favor! Não sou Marcelo Madureira! Não sou Hubert! Não sou um casseta! Não quero cansá-los!) num filme pornográfico do antigo Cine Casablanca, no centro da cidade.
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Às vezes vale a pena pensar sobre a vida. Não sobre o que temos ou não consumido, tampouco a respeito do que fizemos ou deixamos de fazer. São aspectos factuais que, mais do que ajudar em uma reflexão mais profunda, tornam-se barreiras ao pensamento abstrato, aquele onde vamos encontrar as verdadeiras significações. Chegamos quase à Ideia de Platão, mas aí já o terreno é extremamente perigoso e podemos nos enredar.
“Engulam: os Estados Unidos mandaram o homem à lua, e nós enviamos o nosso homem para falar com o Obama!”. Foi com estas palavras, sentado em sua cadeira reclinável de tecido puído, com os pés cruzados sobre a mesa, os cantos da boca espumando como um cão raivoso, que o editor da Revista Bula provocava um concorrente da imprensa, vangloriando-se pela entrevista que Obama concedera a mim em Nova Iorque.
A claridade é pouca, mas me incomoda, mesmo assim não consigo ficar de olhos fechados. A luz deve ser do sol e emana de maneira difusa das quatro paredes do quarto. A porta está muda, pelo menos é o que a chave em seu orifício está querendo significar. Mal consigo ver as telas de que o Roberto tanto se orgulha e que são a expressão de seu gosto pelo kitsch, colocadas em simetria rigorosa em volta da tapeçaria da parede aqui ao lado. Não é justo, isto não está certo. Tento me fixar em uma delas, mas o que vejo é fruto da memória: claridade insuficiente. Estar na cama a uma hora em que a cidade se move nervosa, as pessoas se movem nervosas, e mesmo os automóveis se movem nervosos, isso me escandaliza. Eu precisava, contudo, para que a consciência me deixasse em paz, dar mais esta oportunidade ao meu ex, como agora já posso me referir a ele. A sensação, entretanto, de estar na cama a esta hora, é a de estar praticando um ato ilícito. Ou pior: imoral. E pensar que muitas outras vezes estivemos aqui, fizemos amor nesta mesma hora, e saímos leves, meio tontos, prontos para rir das pessoas que se moviam nervosas, numa cidade trepidante.
Dentro do universo literário existe um fenômeno estranhíssimo, porém constante, de escritores com alta exigência literária, e com incrível capacidade de escrita, que se negam a escrever. Ou escrevem, e publicam, algumas poucas coisas e se calam para sempre. Ou, quando não se calam para sempre, ficam décadas num silêncio literário que agonia seus leitores e que deixam os críticos cismados. Esses escritores fazem parte do grupo que sofre da síndrome de bartleby.
“Que fase...” É o comentário corrente que tenho ouvido dos companheiros de peladinhas aos sábados. Não. Não tenho frequentando os fuleiros churrascos vespertinos baratos à beira da piscina lotada de “universitárias desinibas”. Nunca fui muito afeito aos prostíbulos e não será agora, aterrorizado pela Crise dos Quarenta, que o farei.
Em dezembro de 2011, completaram-se 190 anos de nascimento do escritor francês Gustave Flaubert. Autor de clássicos como “Madame Bovary” e “A Educação Sentimental”, Flaubert é considerado um dos maiores escritores franceses de todos os tempos. Em 1877, aos 55 anos, Gustave Flaubert escreveu o livro “Trois Contes” (“Três Contos”), entre eles um que é considerado sua obra-prima e que ocupa um lugar de destaque na história da ficção universal: “Un Cœur Simple” (“Um Coração Simples”). O conto foi uma ideia da escritora George Sand, que sugeriu a Flaubert que escrevesse “uma história de homem sensível, em que, sem pregar a bondade, sem anunciar a bondade com frases de autor, fizesse com que ela aparecesse nos gestos inconscientes da criatura mais humilde e obscura”. Em comemoração a seu aniversário, publicaremos o conto, dividido em três partes. A tradução é de Clotilde Mariano Vaz, Daniel Vaz e Simia Katarina Rickmann e foi publicada em 1996 pela editora Paz e Terra. (Carlos Willian Leite).
Não chega a ser um assombro ler que os membros do júri do Nobel, em 1961 esnobaram J.R.R. Tolkien. Me parece que o verbo esnobar não cabe no caso, por sua forte carga pejorativa. O que encontro nos jornais, e onde mais encontraria? É que CS Lewis tentou indicar seu colega ao Prêmio Nobel de Literatura, provocando reação contrária dos outros membros do júri. A razão apresentada, "o resultado não se comparava às ficções de boa qualidade", não me parece fora de propósito, muito menos ofensivo. Quando alguém resolve escrever, precisa fazer algumas opções. E a propósito transcrevo trecho encontrado no facebook de Matheus Arcaro: “A alta literatura faz o leitor tropeçar. E não é todo mundo que está preparado para cair. Por isso os best sellers são best sellers: porque dizem o que o leitor espera. O leitor menos preparado chama isso de ‘identificação com a obra. ‘Puxa vida, este autor diz exatamente o que eu penso.’ Não percebe que o prazer da leitura é justamente fechar o círculo’.” Não me parece que recusar alguém por falta de qualidade seja o mesmo que esnobar.