15 livros obrigatórios dos últimos 15 anos da literatura brasileira

15 livros obrigatórios dos últimos 15 anos da literatura brasileira

Ao contrário do que creem alguns autores, a literatura brasileira não se inicia no abrir de seus livros. Todo engenho de um novo título é a amálgama de referências pretéritas, uma tessitura invencível ao tempo, indispensável e luminosa. A lista abaixo é composta por obras de escritores que, cientes dessa condição, renovaram ou revigoraram gêneros e tradições literárias. Pois como bem assinalou o editor Gustavo Guertler, a ficção contemporânea precisa de “autores que não saibam com quem se parecem, mas que saibam de quem eles são diferentes”. Essa é a chave para, de fato, ter valor a abertura de um livro.

Não é nada fácil ser mulher-calendário

Não é nada fácil ser mulher-calendário

Cena de abertura: Mulheres-calendário, com peitos em 3D, sorrisos famintos e bundas mais redondas que abóboras colhidas em generosa chácara. As línguas, parecendo saltar da enorme e coloridíssima peça gráfica, como às de camaleões safados. Nubentes do diabo isso sim, eram as 12 moças que pulsavam naquele calendário, postado em parede-de-honra- nas principais oficinas mecânicas da capital. Uma peça, cuja renda da aquisição pelos donos das oficinas destinou-se a asilos de badaladas atrizes de filmes pornôs na década de 70.

Poesia não enche barriga

Poesia não enche barriga

“Uma mulher que palita os dentes num restaurante não possui a menor credibilidade, muito menos merece um soneto” — pensou cheio de inconformismo, enquanto derramava café expresso no túnel esofágico. Chamou o gerente, reclamou do preço da chuleta, do atendimento do garçom, do calor que fazia ali dentro, da morena que arrancara nacos de carne presos entre os molares, do intestino solto do recepcionista, de qualquer coisa que justificasse o não pagamento da gorjeta pelos serviços prestados.

Sobre os patetas e sua arte de caminhar para trás

Sobre os patetas e sua arte de caminhar para trás

Isso, criatura. Fure mesmo essa fila. Passe em colossal descaramento à frente de todos que aqui esperávamos a vez honestamente. Muito bem! Uma salva de palmas para o cidadão ali, tão certo de sua soberania sobre todos os outros. Bravo! E que bela buzina a sua, cavalheiro que afunda com generosidade a mão no volante e os pés no acelerador, alardeando a superioridade de sua máquina entre os outros carros tão lentos e sua mania de obedecer os limites de velocidade e outras regras da convivência civilizada.

O amor é a arte de se agarrar na vida

O amor é a arte de se agarrar na vida

Você pode fazer o que quiser com isso. Guarde, jogue, passe adiante, sorria, chore, avise a polícia, reflita, esqueça. Não importa. É urgente dizer que eu tenho amor por você. Tenho, sim. Não vai aqui nenhum pedido de reciprocidade, namoro, casamento. Nada disso. É só a minha necessidade teimosa de dividir o que eu sinto. Confesso. Eu até ensaiei no espelho para lhe fazer essa declaração com um certo jeito, mas resolvi ir direto. Sem rodeios e astúcias. Quem tem amor não perde tempo com bobagem. Eu amo e pronto. Amo! Tenho uma vontade grandiosa de trabalhar e construir e ter uma vida boa nesse mundo por onde você anda.

O fazedor de amanhecer anoiteceu

O fazedor de amanhecer anoiteceu

Pensava pequenino, esse grande menino. Gostava de revirar pontuações nas poesias e na cabeça de pensamentos ondulantes. Engasgava na política dos pontos e vírgulas: sobrevoava os lentos e dúbios acasos das reticências infinitas. Duvidava de tudo, até das interrogações. Pois questionava o que já nascera pronto, rígido e sem jeito de mudar. Certas horas se interjeitava, segurando uma interjeição bem alta, quando um bambuzal resolvia assoviar pra ele. Namoros de recantos livres ao ar livre, que aconteciam mesmo sem vento nem abanos de alguma espécie. Sussurros já davam conta, assim semeados pelo caminho dos sonhos.

E se toda guerra fosse de travesseiros? E o choro fosse só de alegria?

E se toda guerra fosse de travesseiros? E o choro fosse só de alegria?

Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão… Porque eram feitas de milhões de marshmallows! E quando chovia, elas despejavam confetes de chocolate colorido, que iam tingindo casas, carros, avenidas inteiras e quem mais passasse por ali, sem pressa, naquele dilúvio açucarado. De boca aberta é mais gostoso ficar, como debaixo de um balão cheio de doces, à espera daquele que vai furar a bexiga e regar todos os pequenos com guloseimas! E que sejam pequenos, grandes, vovô e vovó, tios e primos, cachorro, gato, papagaio. Todo mundo junto numa festa só, dentro de um balão mágico, ou numa nave espacial!