Carpe diem

A infância são lugares e ruídos

A infância são lugares e ruídos

Vocês todos aí preocupados com os rumos do país e eu aqui cumprindo um ritual de recordações que é um dos meus prazeres de domingo. Envolve álbuns antigos de fotografias, pesquisas na internet e até caminhadas pelas ruas e vielas da minha juventude. Sendo leitor de Proust, Pedro Nava e Eric Kandel, desde cedo eu estava destinado à sina de lembrar.

A melhor livraria de São Paulo

A melhor livraria de São Paulo

Estive com o velho Líbano, creio, uma única vez, há coisa de uns trinta anos. Por motivos que não interessam aqui, fiquei muito tempo sem frequentar sua livraria, para mim a melhor de São Paulo (e ainda há o plus da localização: ela fica no belíssimo — sim, belíssimo — centro da capital paulista, na Barão de Itapetininga). Lá retornei há uns três ou quatro anos e, nos seus labirintos, escolhi uns tantos livros excepcionais, entre eles “O Direito do Amazonas ao Acre Setentrional”, um estudo jurídico de Rui Barbosa, encadernado finamente e que eu pretendia destinar a um amigo no seu aniversário.

Retrato do rio como visão do paraíso

Retrato do rio como visão do paraíso

Houve amigos na viagem, evidentemente, que os meus amigos têm participado das minhas pequenas tragédias e atribulações há muito, muito tempo, mas também me seguem nas fugazes alegrias, e, sendo eles quem são, isso qualificou tremendamente a aventura; contudo, foi a paisagem, sem dúvida, que comandou os dias em que lá estivemos, assim como aquela imensidão de águas ordena a vida de todos em Santarém desde 1661, data de sua fundação por jesuítas.

Homem velho, mês seco

Homem velho, mês seco

“Aqui estou eu, um homem velho, num mês seco.” Sinto-me velho, cansado e saudosista. Talvez isso venha da idade — ou será reflexo destes estranhos tempos? Dinossauro fugido de seu parque jurássico, virei o tio anacrônico que fala, a propósito de tudo, “No meu tempo…”. Não vou dizer que a internet era tudo mato quando aqui aportei, mas que ela era ainda movida a vapor, isso era. Melhorou bastante depois que colocaram válvulas. E mudou muito. Mudou tanto que não encontro as balizas de sempre e me perco constantemente. Abarrotam-nos de informações.

Se tudo é preconceito, xenofobia e fascismo, nada mais o é de verdade

Se tudo é preconceito, xenofobia e fascismo, nada mais o é de verdade

Há labirintos que nos parecem sem saída; confusos, nem sequer podemos, nos ensinam a mídia, nossos líderes e o blogueiro moderninho, sob risco de linchamento pelos Torquemadas da nova Santa Inquisição (Santa Inquisição, vocês sabem, era uma espécie de Facebook da Idade Média), emitir qualquer opinião fora dos cânones pré-estabelecidos por uma soi-disant elite que pensa as relações sociais como reflexo do próprio mundinho.

Morreu Philip Roth

Morreu Philip Roth

O que dizer de um escritor que admiro profundamente? Li todos os seus livros, vários deles excepcionais, e já escrevi antes sobre o impacto que “O Teatro de Sabbath” teve em mim. O livro é, como todo grande romance, cheio de camadas que se sobrepõem. A vida de Morris Sabbath é um longo acúmulo de fracassos. Leio-o, entre outras coisas, como uma reflexão sobre a vida e a morte, e por isso o texto é profundamente humano, demasiado humano.

Existem janelas  para todos nós, aguardando o nosso lado outsider adormecido

Existem janelas para todos nós, aguardando o nosso lado outsider adormecido

Sim, sabemos que janelas e portas são o canto de sereia de deprimidos, suicidas e insatisfeitos com a caminhada, sempre aflitiva, no “jardim dos caminhos que se bifurcam” (todos nós?). Mas esse chamado se faz por oposição, ai de nós: se o que há além delas é uma possível liberdade, dentro existem as paredes que simbolizam as normas que, afinal, devem reger qualquer vida social.