Discover

Há livros que se escrevem como quem acende uma vela. Outros, como quem risca um fósforo dentro de um cômodo fechado com vazamento de gás. Não é exagero — ou talvez seja, mas os fatos sustentam o drama. Algumas narrativas não causaram comoção simbólica: causaram pânico, repúdio oficial, processos judiciais e ameaças de morte. Não foram apenas mal-recebidas; foram tratadas como ofensas reais ao mundo exterior à literatura.

“Versos Satânicos”, de Salman Rushdie, talvez seja o exemplo mais extremo. Uma ficção de linguagem múltipla, exuberante, que reimagina temas religiosos com sarcasmo e lirismo. Bastou isso para que uma sentença de morte fosse emitida contra o autor, por suposta blasfêmia. Não é metáfora: ele foi caçado, ameaçado, esfaqueado. A ficção provocou o martírio.

Com “Lolita”, Vladimir Nabokov escreveu um livro formalmente perfeito, mas moralmente abissal. Um homem apaixonado por uma menina. A voz sedutora do narrador tenta — e consegue — confundir. A denúncia moral vem disfarçada de beleza, e talvez por isso doa mais. A obra foi banida, seus editores processados. Mas o mal, ali, é um sussurro, não um grito.

Em “O Tambor”, Günter Grass deu voz a um menino que não cresce, em meio à ruína nazista. Mas foi a adaptação para o cinema — fiel à transgressão sexual implícita no livro — que desencadeou processos por pornografia infantil. O autor, ainda que distante da filmagem, teve o nome arrastado ao banco dos réus morais.

“As Benevolentes”, de Jonathan Littell, desceu ao inferno com elegância glacial. Um oficial nazista narra, sem remorso, sua rotina de extermínio. O incômodo não veio só do conteúdo — mas da ausência de juízo. A justiça formal foi acionada. A crítica, dividida.

E então “Os Cantos de Maldoror”, escrito por um jovem francês que assinava como Lautréamont. Um livro de ódio cósmico, onde a voz anônima invoca repulsa, devassidão, anticristianismo. Foi enterrado antes mesmo de respirar no século 19 — e quando voltou, um século depois, ainda era demais para muitos. Há livros que são julgados por serem ruins. E há os que são julgados literalmente. Esses — foram ambos.

Leia Também