Autor: Eberth Vêncio

O primeiro tiro a gente nunca esquece

O primeiro tiro a gente nunca esquece

Assim vivemos. Sobrevivemos nos dias bicudos de um mundo carniça. Gente sofrendo perrengues em longas filas de espera. A grana curta. Um maldito oficial de justiça que está apenas cumprindo o seu papel e nos bate à porta. Homens que batem em mulheres. A saudade de pais que já não podem ser abraçados.

A dor é uma visita que não vai embora

A dor é uma visita que não vai embora

Pimba na gorduchinha. Está valendo. Começa mais uma peleja entre Deus e o diabo. Que se percam os piores. Assim é a vida. O jogo é de portas fechadas ao público. Ninguém quer saber dos podres uns dos outros. Torcida desorganizada. Apenas os rostos amarelados pelo tempo sorriem da estante.

Há uma leva de corações decadentes  pulsando no centro sujo das grandes cidades

Há uma leva de corações decadentes pulsando no centro sujo das grandes cidades

Tenho certos conceitos aprisionados dentro da cabeça e isso é péssimo. Momentaneamente, eu sinto asco da espécie humana. Um andarilho para com câimbras. Um velhote que compra ouro e paga à vista cochila. Sonhará com fortunas ou sua afortunada juventude de volta? Uma moça de beleza impressionante abre passagem na multidão deixando rastros de Palmolive no ar. A vida é um filme noir: preto no branco, melodrama.

Não era amor

Não era amor

Sou um homem antiquado, maduro como uma banana, metido com uma mulher muito mais jovem, muito mais louca, igualmente imatura. Serei também um inseto? Quisera passar pela metamorfose de que nos fala Kafka e ser pisoteado por pés tão cativantes.

Você tem um passado promissor pela frente

Você tem um passado promissor pela frente

Mataram a tiros Dona Carmem, a mulher que me lia as mãos. Perdi o chão; ela, a vida. Eu soube que restou cogitado pelos técnicos da funerária serrá-la ao meio, num corte sagital que pegava da forquilha até o cocuruto, um recurso hostil, grotesco, porém, estratégico, para acomodar, fazer caber o seu cadáver gorducho dentro de dois ataúdes de pau-bosta. A família ria de estupefação e ódio.

Enjoei de viver

Enjoei de viver

— Fundamentalmente, eu me tenho me ocupado com pequenos delitos nas linhas do metrô. Tenho as mãos limpas. Nunca matei um homem. Nunca usei um estilete que fosse. Certa vez, por mero descuido, gozei na testa de uma venezuelana e ninguém deu a mínima. Pensaram que eu fosse um doido qualquer aprontando mais uma das minhas. E ainda vociferam que não existe preconceito racial neste país.