Autor: Larissa Bittar

A vida toda é saudade. Um filme sem direito a replay

A vida toda é saudade. Um filme sem direito a replay

Eu tentei estacionar minutos por tantas vezes. E segui batendo com a cara no muro. A vida insistia em tirar onda com minha pretensão infantil de querer romper com a rota natural das coisas. Sempre que tentava burlar o inevitável fluxo que nos obriga a olhar para frente, a realidade se apresentava como uma avalanche impiedosa, mas necessária. De um lado eu batalhava para eternizar felicidade em porta-retratos estáticos, de outro o mundo era filme sem direito a replay.

No último dia do ano haveremos de rever orgulhos e viabilizar reconciliações

No último dia do ano haveremos de rever orgulhos e viabilizar reconciliações

No último dia do ano haveremos de pincelar com um pouco de graça essa jornada que nos leva do chão ao topo num piscar de olhos, que nos faz em um dia abraçar o travesseiro aos prantos e no outro ter vontade de gritar aos céus como a vida vale a pena. Seremos o acumulado dos anos anteriores dando passagem para ares inéditos. Alicerçados nos perrengues que nos deram casca e nos prazeres que nos deram ânimo, uniremos o ontem e o amanhã em um só minuto.

Viaje sozinha ao menos uma vez e descubra um mundo gigante como agradável companhia

Viaje sozinha ao menos uma vez e descubra um mundo gigante como agradável companhia

A meu ver, nada é melhor do que a troca de experiências, nada supera a beleza das relações. Vemos no outro o espelho ou a contraposição do que somos e, através do convívio, a vida ganha significado. Não faria, portanto, a defesa da solidão em qualquer circunstância. Entretanto, olhar para dentro e encontrar ali o que tantas vezes é procurado fora é um presente que todos deveriam se dar. Ao viajar sozinha a mágica acontece. Você encontra na autonomia dos seus passos a chave para ser quem quer e viver o que pretende. Descobre que não existe o que seja poderoso o suficiente para barrar suas escolhas. E tudo isso enquanto passam pelo seu caminho pessoas que de outra forma você jamais conheceria.

Felicidade é achar dinheiro esquecido no bolso. O resto é alegria passageira

Felicidade é achar dinheiro esquecido no bolso. O resto é alegria passageira

Temos guardado no canto da mente um tapete vermelho que estendemos ao que nos tira do eixo. Gostamos mais do romance que nasce improvisado na fila do mercado, quando saímos de casa com o cabelo rebelde e a camiseta furada, que daquele planejado com pompa, maquiagem e expectativa alta. É tão mais gostoso o beijo sem hora marcada, o presente fora de data, a festa que surge do nada, a cereja que estava no fundo do bolo.

À medida que avançamos, deixamos para trás um bocado de nós

À medida que avançamos, deixamos para trás um bocado de nós

A gente insiste no desejo de abraçar o mundo. Não sei bem se isso é um defeito incorrigível ou uma bonita maneira de reconhecer a enormidade de universos que há para explorar. De toda forma, é inviável. Seja uma vontade infantil dos eternos insatisfeitos com o que possuem ou uma admirável tentativa de não sucumbir à mesmice, não deixa de ser inútil. Não temos braços e fôlego para abarcar a totalidade do que nos falta mantendo, ao mesmo tempo, o que nos sobra.

Essa mania de ter sempre razão vai acabar matando a gente

Essa mania de ter sempre razão vai acabar matando a gente

Discutir é bom. Aliás, só assim a gente abre um pouco essa mente acomodada. Mas discutir só é bom quando estamos tão interessados em ouvir quanto em falar. Há a impressão de que, iniciada a defesa da própria tese, revê-la à medida que as ponderações opostas se mostram mais sensatas é render-se à humilhação. Dar o braço a torcer cada vez dói mais. É como se estivessem em jogo a inteligência e o poder. Perder a discussão equivaleria a perder a própria honra.

Não transfira a seus pais o peso de suas expectativas

Não transfira a seus pais o peso de suas expectativas

Sustentar sobre os ombros o peso de ser invencível não é tarefa simples. Sobretudo quando todos os padrões e convenções sociais alimentam esse ciclo de esforço seguido de culpa fazendo o muito não parecer suficiente. Estipula-se que pais são muralhas que não racham. Não percebemos como é cruel delegarmos a alguém de carne e osso a incumbência de honrar o pedestal em que foi colocado.