Crônicas

Não matarás, cidadão de bem

Não matarás, cidadão de bem

Da última vez que visitei o meu pai, assistimos juntos, pela TV, ao presidente da república vociferando que enviaria projetos de última hora ao Congresso Nacional, a fim de acelerar o processo de armamento da população. Carecia “armar o cidadão de bem”. Está cumprindo à risca uma das suas principais promessas de campanha, ocasião em que ele, os seus seguidores e os seus apoiadores imitavam armas utilizando, de forma patética, os dedos das mãos.

Que tipo de povo elege um idiota?

Que tipo de povo elege um idiota?

Correligionários comemoravam a eleição do deputado Cara-de-Cicatriz para a Presidência da Câmara dos Horrores. O palacete fora cedido por um bajulador do governo, um empresário conservador nos costumes e liberal no costume-de-extorquir, o qual já tinha se declarado inocente pelos crimes cometidos e favorável ao reajuste periódico das propinas, à volta da tortura com música sertaneja e ao retorno imediato dos militares aos quartéis.

Admirável mundo insólito de José j. Veiga

Admirável mundo insólito de José j. Veiga

José Jacinto Veiga foi um sujeito desbravador. Um bandeirante às avessas, pois o seu ouro era outro. Nasceu na roça, estudou no Lyceu de Goyaz, foi caixeiro das Lojas Pernambucanas. Aos 20 anos, mudou-se pro Rio de Janeiro, onde trabalhou como propagandista de remédios, radialista e escriturário. Obstinado, fez-se advogado na Faculdade Nacional de Direito. Depois, deu vazão à sua alma irrequieta mudando-se para Londres, onde permaneceu por 5 anos, trabalhando na BBC.

Se Deus for mesmo brasileiro, estamos ferrados

Se Deus for mesmo brasileiro, estamos ferrados

Só pelo título já sei que um monte de gente vai me mandar para Cuba, para a Venezuela ou para a PQP. O presidente, com seu palavreado chulo, anda a fazer escola. Não me atingem. O meu amor-próprio verga, mas, não quebra. Já me acostumei com essa turma. Não suportam ser confrontados. Têm sempre a última palavra. Não cedem um só milímetro.

Bazófia acima de tudo

Bazófia acima de tudo

Há um velho adágio que diz: primeiro a obrigação, depois a devoção (ou a diversão). Alguns pensadores contemporâneos contestam a assertiva e defendem que tais conceitos não seriam excludentes e poderiam coexistir amigavelmente. Pode ser. De fato, em condições normais, tanto cuidar do jardim como ler o jornal seriam a mais pura diversão. Mas no atual contexto, ambas se convertem na mais premente obrigação.

Que o vírus do ódio não nos mate a democracia

Que o vírus do ódio não nos mate a democracia

Após um lapso literário abissal, eu lia “1984”, de George Orwell, o tipo de livro que reitera a absoluta e crucial necessidade de defender a democracia e a liberdade de expressão com unhas e dentes. Ditadura é osso. Contra o autoritarismo vale tudo, inclusive, bater panela, protestar pelado na rua ou trepar nos velhos monumentos da república cagados pelos malditos pombos.

Orgulho de ser trouxa

Orgulho de ser trouxa

Taylor nasceu de parto anormal, cravando as unhas das mãos e dos pés nas reentrâncias e circunvoluções elástico-gelatinosas do canal do parto. Teimoso, histriônico ao extremo, quase se enforca no cordão umbilical. Supõe-se que pressentia um mundo pior do lado de fora do claustro materno.

Os que ainda têm pulmões fortes têm o dever de gritar

Os que ainda têm pulmões fortes têm o dever de gritar

Está faltando ar. E nem os pesadelos mais pessimistas previram que, meses depois, o negacionismo e ignorância iniciais persistiriam com tanto vigor. Em cada leito que alguém tenta puxar o último respiro de sobrevivência, agoniza também a luta contra a estupidez e a maldade dos que reverberam o descaso personificado na maior liderança política do país.