Da arriscada e deliciosa arte de provocar um cretino

Da arriscada e deliciosa arte de provocar um cretino

Um dia, desses dias definitivos na vida de toda gente, um homem ordinário olhou para os lados e se viu cercado de idiotas. Era isso. Estavam explicados a sua insônia, sua falta de apetite, sua impotência sexual, sua raiva do mundo, sua apatia no trabalho. Ele acabara de descobrir a causa de suas mazelas. O mundo lhe fazia mal porque estava povoado de imbecis. Pronto. Essa era a sua doença, ele estava diagnosticado! Agora só faltava iniciar um tratamento radical: daquele dia em diante, o homem dedicou seu tempo a catalogar e punir os patetas que encontrasse vida afora.

Ele: a chave. Ela: a fechadura

Ele: a chave. Ela: a fechadura

Ele veio com a força de um tornado levando as folhas secas que cobriam o quintal do coração dela. Foi o verão que chegou antes da hora com seu sol queimando o corpo todo, fazendo ela derreter. Colorido, com cheiro de maresia, os dias eram tão grudados quanto corpo melado de suor. Mal podiam esperar o amanhecer e já estavam entranhados um no outro, respirando das suas bocas. Ele era dela, ela era dele. Eram um só. O tempo todo. As mãos sempre entrelaçadas, beijos intermináveis que só admitiam dar lugar aos sorrisos bobos e olhares úmidos.

Sorria. Nós estamos todos presos

Sorria. Nós estamos todos presos

Olha, cá entre nós, aqui nesse lugar somos todos prisioneiros. Todos. Cada um do seu jeito, estamos presos, amarrados, atados de alguma sorte. Enrolados de formas diferentes, mas todos, todos atrelados a suas próprias escolhas. Pode reparar. Há os cativos de suas lembranças. Os detentos de suas saudades. Os que se deixam aprisionar por seus planos futuros e expectativas, os escravizados por seus medos, suas vontades e seus desejos. Os acorrentados a seus preconceitos e ideias fixas. Mas todos, todos estamos enlaçados. Alguns à espera, outros em busca. Parados ou em franco movimento, seguimos todos em prisão perpétua.

“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”

“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”

A natureza sabe das coisas. Cada uma das estações carrega em si uma compreensão infinita das fases da própria vida, que se espelha também nos estágios da nossa existência. Nascer, crescer, amadurecer e morrer. Se quisermos pinçar metáforas no leque das comparações, poderemos sugerir verbos afinados. Brotar, florescer, frutificar e fenecer. Nem sempre, porém, compreendemos os sussurros contidos nestes ensinamentos cercados de verde, mutações frequentes e da eterna presença da esperança.

Não jogue pérolas aos porcos

Não jogue pérolas aos porcos

Mais um ano de eleição. Mais promessas, mais injúrias. Novos rostos, antigos. Novas ofensas, antigas. Sujeiras criando raiz por debaixo dos panos, ruas imundas, jingles insuportáveis martelando o compasso brega no mais profundo do tímpano. É, meu amigo. Quatro anos passaram tão rápido feito bala perdida. Vejo cidadãos enlouquecidos levantando bandeiras, aclamando candidatos aos gritos, defendendo fervorosamente e cegamente um competidor e um partido. Venho acompanhando os debates políticos e a cada round assombrosamente consigo me surpreender com o ser humano.

Sem taxímetros também se vai ao céu

Sem taxímetros também se vai ao céu

Não costumo escrever a respeito dos meus destinos de viagem para não parecer mais presunçoso e metido a besta do que penso. No duro: não sou de vomitar cruzeiros all-inclusive, de me deixar fotografar ao lado de uma centenária torre francesa enferrujada. Melhor seria fazer um selfie com a septuagenária La Belle de Jour. É líquido e certo: Catherine Deneuve e o Rio de Janeiro continuam lindos.

Viver é resgatar os sonhos esquecidos no fundo do armário

Viver é resgatar os sonhos esquecidos no fundo do armário

Vencer dificuldades, ultrapassar preconceitos e seguir em busca de sonhos e ideais nem sempre é uma jornada fácil nessa vida tão competitiva e cheia de inveja e intolerância. E, muitas vezes, temos que primeiramente enfrentar uma luta interior antes de estarmos prontos para a guerra que acontece lá fora. Mas, quando existe paixão de verdade e uma autêntica aspiração de quem sonha, não há limites que possam ser enfrentados. Quando eu escrevo, tento superar os meus limites. Inicio uma busca incessante das minhas lembranças, de mim mesma, dos meus sonhos guardados e até daqueles que foram esquecidos em caixas bem lá no fundo do armário.