Fernando Pessoa

Os 10 melhores poemas de Fernando Pessoa

Pedimos aos leitores e colaboradores — escritores, jornalistas,  professores — que apontassem os poemas mais significativos de Fernando Pessoa. Escritor e poeta, Fernando Pessoa é considerado, ao lado de Luís de Camões, o maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal. O crítico literário Harold Bloom afirmou que a obra de Fernando Pessoa é o legado da língua portuguesa ao mundo.

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em junho de 1888, e morreu em novembro de 1935, na mesma cidade, aos 47 anos, em consequência de uma cirrose hepática. Sua última frase foi escrita na cama do hospital, em inglês, com a data de 29 de Novembro de 1935: ‘I know not what tomorrow will bring’ (Não sei o que o amanhã trará).

Seus poemas mais conhecidos foram assinados pelos heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, além de um semi-heterônimo, Bernardo Soares, que seria o próprio Pessoa, um ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa e autor do “Livro do Desassossego”, uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século 20. Além de exímio poeta, Fernando Pessoa foi um grande criador de personagens. Mais do que meros pseudônimos, seus heterônimos foram personagens completos, com biografias próprias e estilos literários díspares. Álvaro de Campos, por exemplo, era um engenheiro português com educação inglesa e com forte influência do simbolismo e futurismo. Ricardo Reis era um médico defensor da monarquia e com grande interesse pela cultura latina. Alberto Caeiro, embora com pouca educação formal e uma posição anti-intelectualista (cursou apenas o primário), é considerado um mestre. Com uma linguagem direta e com a naturalidade do discurso oral, é o mais profícuo entre os heterônimos. São seus “O Guardador de Rebanhos”, “O Pastor Amoroso” e os “Poemas Inconjuntos”. Em virtude do tamanho, alguns poemas tiveram apenas trechos publicados. Eis a lista baseada no número de citações obtidas.

 

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


O guardador de rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.


Ode marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.


Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Presságio

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…


Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.


Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


O cego e a guitarra

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.

Ilustração: Rui Pimentel
  • http://definitivosimples.blogspot.com.br/ Aydil Franco

    muito bom…

    • Jeniffer Santana

      concordo…eles realmnte fazem mto sentido..!!

  • http://yurivieira.com/ Yuri Vieira

    Quero aproveitar o ensejo e convidá-los a ouvir minha leitura de alguns poemas de Fernando Pessoa:

    Tabacaria – http://www.youtube.com/watch?v=Mio6VDuX_S8

    Cruzou por mim… – http://www.youtube.com/watch?v=B9diQBq2bvI

    Análise – http://www.youtube.com/watch?v=hSElk4XFJGg

    Poema em linha reta – http://www.youtube.com/watch?v=q6n8MxxyBYs

    Passagem das horas [a] – http://www.youtube.com/watch?v=yyqoloF1op0

    E também o texto em prosa, no qual ele afirma que sua pátria é a língua portuguesa:

    Abraços!

  • Mirele

    “Quem quer dizer o que sente
    Não sabe o que há de dizer.
    Fala: parece que mente…
    Cala: parece esquecer…”

    Perfeito!!!

  • Sérgio Araripe

    Excelente!
    Cada vez que leio Fernando Pessoa descubro a sua genialidade.

  • Jocylene

    Meu poeta preferido!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • luana larissa

    amei as poesias sao lindas vou ver se eu faço uma musica com elas

  • Fernando Antonio Pessoa

    Pode escrever bem, fazer boas rimas e forjar belas frases. As vezes ate caímos em meio a elas, filosofando ou nos identificando. Mas verdade seja dita, fora mais um infeliz, seja la por qual ou quais motivos. Motivo que o fez escrever, e por sorte teve o dom ou a infelicidade de se expressar muito bem. Mas apenas para os outros, pois ele mesmo não conseguia, com palavra nenhuma, com poema nenhum se curar dessa dor que sentia. Mas, “assim como o poeta so é grande se sofrer”, fez-se historia na literatura, vicio de muitos homens, abrigo de muitos corações solidários e apaixonados. Mas de nenhum feliz! pois de fato quem tem a felicidade não lê. Não precisa dela pra nada.

    • Edmar

      Discordo de você amigo , talvez seus poemas não era uma maneira de expressar sua dor e sim dele sentir a paz e a felicidade que todos procuram . Como um jogador de futebol marcando um gol , talvez seja essa a vocação dele . E usando um poema dele como prova “O poeta é um fingidor.Finge tão completamente
      Que chega a fingir que é dor
      A dor que deveras sente.” . Talvez você esteja correto mas eu leio por que me traz mais felicidade .

    • Marcelo L Costa

      Não é difícil entender porque algumas pessoas ficam na história do mundo, aos nos deleitar com o que poucas tem condição de expressar mesmo sendo de época diferente parece estar totalmente atualizado.

    • Lilia Lima

      Caro Fernando Pessoa

      Estou respondendo pq vc escreveu o que eu estava pensando, cada virgula, lendo os poemas do FP tudo o que me vem a mente é: que criatura infeliz meu Deus, tão infeliz que transbordava…

  • LARISSA

    mt loko as poesia de fernando pessoa
    eu e minha amiga luana tamo amando as poesias dele
    <3

    • manu

      lindas as poesias de Fernando pessoa perfeita adorei

  • Lúcio

    Puxa! Como podem essas pessoas que escolheram alguns dos poemas dele, terem omitido “APONTAMENTO” e “GRANDES SÃO OS DESERTOS”. Poemas de uma singularidade belíssima !

  • Jacyara Leite

    Apontamento ??

  • Luis Borges

    cadê o “Mar Português”?

  • Nilton

    Fernando Pessoa é um dos seres maravilhosos enviados à Terra por Deus. Ele continua vivo nos fazendo sonhar.

  • Franciscoaferraz

    Não faz sentido dizer quais são os melhores poemas de Fernando Pessoa, Todos são excelentes e cada um conta uma estória, e vamos acabar gostando muito mais daqueles que contam nossa estória.

    • Joe Borges

      È verdade Pessoa foi um criador genio que deu mente e coracao universal às suas palavras.

  • Malu Gomes

    Adoro FP, ele consegue ser sempre o presente e nunca o passado, está eternamente na atualidade.

  • Luiz Mendes

    Nietzsche era filosofo!

    • Danilo del Monte

      Era poeta também.

  • Juan Felipe

    Amo ”Presságio” o meu preferido.

  • Regina Angela Giometti Pedreir

    Tabacaria

  • yasmim

    o cego e a guitarra

  • grandex_Xd

    Autopsicografia é very cool

  • Neuma Furtado

    …não sei quantas almas tenho

  • Lauã Campos Queiroz

    Aqui vai o meu favorito dele:

    Ao Mistral Canto-Dança

    Vento mistral, caçador de nuvens,
    Matador de tristezas, varredor dos céus,
    Como te amo, ó vento que ruge!
    Não somos os dois primícias
    De um só ventre, predestinados
    A um só destino eternamente?

    Aqui, sobre lisos caminhos nas rochas
    Corro dançando ao teu encontro,
    Correndo quando assovias e cantas:
    Tu que sem navio e sem remo,
    O mais livre irmão da liberdade,
    Saltas por sobre mares bravios.

    Mal acordara, ouvi teu chamado,
    Precipitei-me para as falésias,
    Para a dourada muralha junto ao mar.
    Salve! Como claras, diamantinas
    Correntes já vinhas, vitorioso,
    Do lado dos montes,

    Pelas planuras do céu
    Vi os teus corcéis galoparem,
    Vi o carro a te elevar,
    Vi mesmo a tua mão avançar
    Quando, sobre o dorso dos cavalos,
    Como um raio brandia o açoite.—

    Do carro te vi saltar
    A fim de mais veloz te arrojares,
    Como que abreviado em flecha te vi
    Cair verticalmente no fundo—
    Como um raio de ouro atravessando
    As rosas da primeira aurora.

    Dança agora sobre mil dorsos,
    Dorsos de ondas, malícias de ondas—
    Salve quem novas danças cria!
    Dancemos de mil maneiras,
    Livre— seja chamada a nossa arte
    E gaia— a nossa ciência!

    De cada flor arranquemos
    Um botão para a nossa glória
    E duas folhas para a coroa!
    Dancemos como trovadores
    Entre os santos e as meretrizes
    Entre Deus e o mundo inteiro!

    Quem com os ventos não pode dançar
    Quem precisa em ataduras se envolver,
    Enfaixar-se como um velho trôpego,
    Quem age como os hipócritas,
    Patetas da honra e falsos da virtude,
    Ponha-se fora do nosso paraíso!

    Agitemos as poeiras das estradas
    Nos narizes dos homens doentes,
    Atemorizemos todo o bando dos enfermos!
    Livremos a costa inteira
    Do alento dos peitos ressequidos,
    Dos olhares sem ânimo!

    Expulsemos quem turva o céu,
    Enegrece o mundo e afasta as nuvens,
    Tornemos mais claro o reino dos céu!
    Ouça-se o nosso rugido… Ó espirito
    De todos os espíritos, junto contigo
    Ruge a minha felicidade como uma tempestade.

    — E para eternizar a memória
    De tal felicidade, toma teu legado,
    Leva contigo esta coroa para cima!
    Lança-a mais alto e mais longe e,
    Escalando impetuoso a escada celeste,
    Pendura-a— nas estrelas!

    (Friedrich Wilhelm Nietzsche, in “A Gaia Ciência”)

  • aline fernanda oliveira

    Bom amei pressagio!

  • André Ferreira de Jesus

    São inúmeras obras magníficas do Fernando Pessoa. Top 10 é muito difícil de dizer, deveria ser mais.
    - O Guardador de Rebanho parte VIII
    - Se Te queres matar
    - O Monstrengo

  • Paulino Roberto

    Navegar é preciso, viver não é preciso…

  • Liberto Carvalho Carvalho

    Fernando Pessoa,o Poeta,do Ontem,do Hoje,e do Amanha.

  • Nívea Patrice

    “Para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui”… Esse não deveria ficar de fora. rsrsrs

  • andressa

    nossa são ótimos amei todos

  • andressa

    amei tudo

  • Fatima Aparecida

    Fernando pessoa, é a PESSOA.Seus poemas tocam na alma.

  • kika

    Very good! =)

  • Viviane

    O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
    Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
    Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

    O Tejo tem grandes navios
    E navega nele ainda,
    Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
    A memória das naus.
    O Tejo desce de Espanha
    E o Tejo entra no mar em Portugal.
    Toda a gente sabe isso.
    Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
    E para onde ele vai
    E donde ele vem.
    E por isso porque pertence a menos gente,
    É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

    Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
    Para além do Tejo há a América
    E a fortuna daqueles que a encontram.
    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio da minha aldeia.

    O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
    Quem está ao pé dele está só ao pé dele

  • Adriely

    maravilhosos!!!!

  • Cássio Azevedo

    Faltou o famigerado ” Para ser grande ser inteiro…” e o ” Sei, enfim, que nunca saberia de mim, sei, de sobra, que nunca terei uma obra…”.
    Sei que não dá pra colocar todos, mas to citando alguns que eu considero bons

  • cynthia

    Para ser grande, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.
    Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
    No mínimo que fazes.
    Assim em cada lago a lua toda
    Brilha, porque alta vive.

  • Eva Ramalho

    Ele foi e continuará sendo um realista no que se refere aos sentimentos humanos. Dá-nos de presente tudo aquilo que pensamos e não conseguimos expressar ! Eva Ramalho

  • carlos alberto

    Maravilha , de inspiraçã e capacidade de desnudar a alma de cada um !!!!

  • Jorge

    Maravilhosas as poesias do grande poeta Fernando Pessoa, as mesmas devem ser degustadas pausadamente para se entender a profundidade da alma do mesmo, um verdadeiro poeta na expressão da palavra.

  • Joana Cristina

    São lindos

  • Dalcio Gilberto Mariano Ribeir

    poema em linha reta, tão real que chega a doer.

  • Késia Ruas

    A minha preferida também! :( Mas diante da obra maravilhosa dele, difícil escolher apenas 10. Te sugiro ler “Quando fui o outro” é um livro muito bom. :)

  • Minha Opinião

    Presságio, o melhor.

  • Juli Stoessel

    Amo estes poemas :) O do Poeta é melhor. Quem acha?

  • Denisar Belvedere

    Faltou “Num meio dia de fim de primavera.”

  • Saymonn

    Estou apaixonado….
    *….*

  • enio

    Tabacaria é sublime. A Nona Sinfonia da poesia.

  • daniel

    o amor e lindo
    o amor e belo
    beijar tua boca
    e o que eu mais quero

  • Leticia

    é lindo esse poema

  • gisele

    e muitos bonitos

  • leo

    presságio é muito lindo

  • anne

    hoje o céu esta estrelado
    pensei em você
    as estrelas brilharam como voce

  • anne

    curti muito

  • lorena

    Muito lindo os poemas

  • vincius

    os poemas n sao para ser compreendidos sao para sentidos de forma para se levar com ele nesses traços de um poeta falando consigo no peito

  • Nanda

    Presságio *.*

  • Miguel Angelo

    Na seleção faltou : Mar Portuguez

  • rodrigo

    todas as cartas de amor

  • Deborah Soares Acioly Santos

    Fernando Pessoa ,Ótimo Escritor!
    Pena que nem todo mundo encherga da mesma maneira !
    Gente sem cutulra , que não sabe Viver, eu sou poeta ,mas tenho medo de ser !
    Todos acham defeitos e isso me deicha sem jeito! o engrassado é que quando a gente morre a gente é conhecido pelo o nosso trabalho! (Mas só quando a gente morre)

    • mauro brunel

      Cara Deborah, escrevemos o que sentimos e o que sentimos depende de quem somos. Mauro Brunel………….tudo vale a pena, se não, para que escrever?!

  • Mariane

    Estava escrevendo tão bonito e de repente vem um “deicha” o.O

    • Juliana

      encherga, cutulra, deicha, engrassado…

  • Ana Júlia Franco

    Fernando Pessoa é um ótimo escritor

  • camila

    Fernando Pessoa me entende!

  • Adriana

    maravilhosos, os poemas de Fernando Pessoa.

  • thaina

    lindooo amei os poemas ;)

  • Isac

    So faltava identificarem qual era o heteronimo para se ter a certeza que se percebe o que ele diz (claro que se entende nos poemas, mas acreditem que saber qual e o heteronimo/ortonimo ajuda a perceber completamente o poema)

  • Solange Maria Assunção

    Esse ¨que¨ de tristeza que há em suas poesias… isso as deixam mais lindas ainda!

  • Ariane Rabelo

    Fica até difícil eleger apenas 10, Pessoa é incrível!

  • Alisson fabiano paixao silva

    Que mal fiz eu aos deuses todos
    vão para o diabo sem mim ou então deixe-me ir sozinho

  • Alisson fabiano paixao silva

    Basta existir para ser completo.
    Poemas Inconjuntos (Alberto Caeiro)

  • Alisson fabiano paixao silva

    Poema em linha reta o melhor de todos.

    • Rayanne

      Realmente ALISSON esse sim e um lindo poema!

      • Alisson Fabiano Paixão Silva

        já leu o livro do desassossego
        muito bom

  • thamy bastos

    inpiracao vem do coracao nao e simples como escrever uma frase , e voce se espresando ou dizendo como a vida e bela

  • Alisson Fabiano Paixão Silva

    Que tal uma discussão sobre os contos de Edgar Alan Poe
    Quem por acaso conhecer algum contistas de horror melhor que ele me diga mas acho isso impossível.

  • Alisson Fabiano Paixão Silva

    vamos falar sobre contos de Allan poe

  • Alisson Fabiano Paixão Silva

    Quem conhecer um contista de horror melhor que Allan Poe, diga, mas acho impossível.

  • anna

    Esse poema nao é de Fernando Pessoa!

  • yuki

    legal esses ><

  • gabriekl

    Gostei,para o meu trabalho na escola

  • Laryssa

    Alguém mim diz uma poesia com o tema:
    ”O lugar onde vivo”