Jair

Jair

E agora, Jair?
A mamata acabou,
seu brilho ofuscou,
o povo tossiu,
sua bolha furou,
e agora, Jair
e agora nenê
você sem renome
só zomba dos outros,
e nunca fez versos,
não ama, não presta
e agora, Jair?

Leva essa mulher,
também seu discurso,
bota num carrinho,
desses de bebê,
sacode pra lá,
bem longe sacode,
seu tempo passou,
o voto não veio,
o golpe não veio,
milícia não veio,
nem a autocracia,
o sigilo acabou,
o Centrão fugiu
seu trunfo mofou,
e agora, Jair?

E agora, Jair?
Sua falsa palavra,
seu estado de febre,
a gula sem jejum
já levou a breca
o seu mau agouro
seu negacionismo
sua ignorância,
sua raiva — e agora?

Sem chave na mão
quer abrir a porta,
qual é mesmo a porta?
Quer morrer sem ar
mas o ar soprou;
quer rever as minas
as minas não há mais
Jair, e agora?

Se você prestasse,
se você valesse
um tostão que fosse
na vala forense,
se você agisse
e nunca zombasse
de alguém que morresse…
Mas, você é um porre,
cabeça de anuro, Jair!

Sozinho no claro,
de horizonte escuro,
sem teologia,
sem igreja sua
para se abrigar,
sem motoca preta
que fuja num torque,
você marcha, Jair,
Jair, para onde?

Paródia do poema José, de Carlos Drummond de Andrade.