4 poemas de Louise Glück, a Prêmio Nobel de Literatura de 2020

4 poemas de Louise Glück, a Prêmio Nobel de Literatura de 2020

Fotografia: Katherine Wolkoff / Divulgação

Os poemas, transcritos abaixo, da americana Louise Glück, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2020, estão inseridos no livro “Antologia de Poesia Norte-Americana Contemporânea”, de 1997, Editora da UFSC, organizado por José Roberto O’Shea e com tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. Louise Glück, de 77 anos, é poeta, crítica de poesia (ensaísta) e professora de Yale, uma das mais respeitadas universidade dos Estados Unidos.

A Academia Sueca afirma que Louise Glück ganhou o Nobel “por sua voz poética inconfundível que, com beleza austera, faz universal a existência individual”. Parece uma avaliação que cabe como uma luva para várias poetas. Mas, pelo pouco que li de Louise Glück, parece precisa.

“Mesmo se Glück nunca negasse a importância do contexto autobiográfico, ela não deveria ser encarada como uma poeta confessional. Glück busca o universal, e nisso ela se inspira em mitos e motifs clássicos, presentes na maior parte do seu trabalho. As vozes de Dido, Perséfone e Eurídice — a abandonada, a punida, a traída — são máscaras para um eu lírico em transformação, tão pessoal quanto válido de maneira universal”, afirma a Academia Sueca.

A Academia Sueca sugere que sua poesia “busca a clareza”. Todos os escritores buscam, por certo. Alguns menos, outros mais. Talvez, pela poesia lida por mim, busca mais a luz, rever a vida pela poesia, do que a clareza. Porque não é fácil tornar “claro” — preciso — aquilo que é enviesado e ambíguo.

O poeta, professor e tradutor Pedro Gonzaga assinala, no “Estadão”: “Filha de uma família de imigrantes húngaros de origem judaica, Glück é conhecida por uma obra marcada pela precisão e pela economia a fazer contraste com seu tom confessional, criando um estranho distanciamento subjetivo”. Uma interpretação um tiquinho mais luminosa do que a da Academia Sueca, que às vezes comenta as obras de maneira genérica, protocolar — o que não significa, no geral, equivocada. “Outro aspecto importante é um retorno aos temas clássicos, seja pelo culto ao mundo natural, assunto dominante em seu premiado ‘Wild Iris’ (1992), seja pela retomada criativa de figuras que povoam a mente de poetas e leitores filiados à tradição ocidental”, registra Pedro Gonzaga. O apontamento da retomada dos “temas clássicos” é correta, mas, se o crítico substituísse “temas clássicos” por temas universais, estaria igualmente justo.

Poetas quase sempre são excelentes comentaristas de poesia. Parece ser o caso, segundo Pedro Gonzaga. “A economia e a clareza de suas avaliações, seja na análise de suas memórias, seja sobre os desafios da lírica, em muito lembram essas mesmas qualidades admiráveis em seus poemas. Numa era de politização total dos temas e de guetificação da experiência humana, numa arte que mais parece propaganda de meia dúzia de lemas gastos, suas palavras são água cristalina e fresca no mais desolador dos verões”, pontua o professor.

Os Estados Unidos são uma nação de grandes poetas, como Emily Dickinson, Marianne Moore, Edna St. Vincent Millay, Elizabeth Bishop, Anne Sexton e Sylvia Plath. Louise Glück merece figurar na lista, não pelo Nobel em si — e já havia sido laureada com o Pulitzer —, e sim pela beleza de sua poesia.

A melhor maneira de saber se Louise Glück mereceu o Nobel de Literatura é avaliando sua poesia. Seis poemas não permitem uma avaliação ampla. Mas provam a qualidade de sua poesia. O poema “Flores silvestres”, tão bem traduzido, merece um adjetivo que não sai de moda: é lindo.

4 poemas de Louise Glück — tradução de Maria Lúcia Milléo Martins

Violetas

Porque em nosso mundo
alguma coisa sempre escondida,
pequena e branca,
pequena e o que chamas
pura, não lamentamos
como lamentas, caro
mestre sofredor; tu
não está mais perdido
do que nós, sob
o pilriteiro, o pilriteiro que sustenta
harmônicas bandejas de pérolas: o que
te trouxe entre nós
que te ensinaríamos, embora
ajoelhes e chores,
juntando tuas grandes mãos,
em toda a tua grandeza nada
sabendo da natureza da alma,
que nunca há de morrer: pobre deus triste,
ou nunca tiveste uma
ou nunca perdeste uma.

A rosa branca

Isto é a terra?
Então não sou daqui
Quem és tu na janela acesa,
agora à sombra
das folhas trêmulas do viburno?
Podes sobreviver onde não vou durar
Além do próximo verão?
A noite inteira os galhos esguios da árvore
movem-se e sussurram à janela iluminada.
Explica a minha vida,
tu que não fazes sinal algum,
embora eu chame por ti na noite:
não sou como tu, tenho apenas
meu corpo como voz; não posso
desaparecer no silêncio —
E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
brancura que firme se consome em escuridão
como se finalmente fizesses um sinal
para me convencer de que também
não pudeste sobreviver aqui
ou para me mostrar que não és
a luz que chamei
mas o breu atrás dela.

Flores silvestres

O que estão dizendo? Que querem
vida eterna? Seus pensamentos são mesmo
tão arrebatadores assim? Com certeza
não olham para nós, não nos ouvem,
em sua pele mancha de sol, pó
de botões-de-ouro: estou falando
com vocês, vocês que olham fixamente
por entre os talos de grama alta agitando
o pequeno guizo — Ó alma! alma! Basta
olhar para dentro? Desdém
pela humanidade é uma coisa,
mas por que desprezar o vasto campo,
seu olhar elevando-se acima das nítidas cabeças
dos botões-de-ouro silvestres em direção a quê?
Sua pobre ideia de céu: ausência
de mudança. Melhor que a terra? Como
saberiam, se não estão nem
aqui nem lá, eretas entre nós?

O lírio prateado

As noites ficaram frias de novo, como as noites
de começo de primavera, e quietas de novo.
Será que a conversa te incomoda? Estamos
sozinhos agora; não temos razão para silêncio.
Vês, sobre o jardim — a lua cheia nasce.
Não verei a próxima lua cheia.
Na primavera, quando a lua nascia, significava
que o tempo era infinito. Anêmonas
abriam e fechavam, as sementes
em cachos caíam dos bordos em pálidas lufadas.
Branco sobre branco, a lua nascia sobre o vidoeiro.
E no arco em que a árvore se divide,
folhas dos primeiros narcisos, ao luar
prata-verde-claras.
Juntos, chegamos
perto demais do fim para agora
temermos o fim.
Nessas noites, não estou nem mesmo certa
de que sei o que significa o fim.
E tu, que estiveste com um homem —
depois dos primeiros gritos,
não faz a alegria, como o medo,
barulho algum?

Euler de França Belém é editor do Jornal Opção.
Email: [email protected]